Adriano Cintra divulga demo com 13 faixas

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Foto: reprodução do perfil do artista no Facebook.

O músico e produtor Adriano Cintra divulgou nesta semana uma demo com 13 faixas, na sua página do Facebook. O trabalho reúne canções que mesclam boas referências acumuladas ao longo da trajetória de Adriano. Em “Backfiring”, por exemplo, há boas doses de New Order, enquanto “Sometimes You Just Do” remete à sua antiga banda Cansei de Ser Sexy – grupo que surgiu em um dos períodos mais interessantes do underground de São Paulo. Enfim, temos aí boas doses de pop, anos 80 e electro rock.

2017 Demos é fruto de um período de 24 dias de gravação, que segundo o próprio músico refletem a imersão do artista em seu próprio tempo criativo. Ao postar o link na rede social, Adriano escreveu o seguinte “Em 24 dias eu compus/fiz as demos dessas 13 músicas. Tem mais uma que só vai pro ‘disco’ que vai estar logo mais nos streamings de suas preferências. Amanhã vai pra mixagem, só assim pra eu parar. Teve uma hora que eu achei que ia fazer um disco duplo mas daí eu fui ouvir uns discos duplos e sei lá, achei meio vyagy

PJ Harvey e sua geopolítica sônica

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A cantora britânica PJ Harvey tem inserido nos seus últimos trabalhos temáticas geopolíticas de forma poética, enfrentando assim o contexto pop meramente comercial. À semelhança de outros artistas, que em tempos distintos aderiram a questões políticas, PJ tenta contrapor, por meio da linguagem, um momento em que a barbárie adentra o senso comum como poder disciplinar. Brecht certa vez mencionou, no auge do fascismo na Europa, que vivia tempos em que era preciso defender o óbvio, tamanha a ignorância de quem se rendia ao discurso do autoritarismo.

Em seu novo single, “The Camp”, PJ Harvey narra a jornada de crianças deslocadas com suas famílias à região de Vale do Beca, no Líbano, parceria artística com o fotógrafo Giles Duley – são dele as imagens que ilustram o ótimo vídeo da faixa. Os vocais são divididos com o músico egípcio Ramy Essam.

Muitos sentidos emanam de “The Camp”, e talvez o mais significativo aos tempos atuais seja o fato de a cantora jogar luz sobre uma realidade que nos permite questionar o “progresso capitalista”. A parceria com Essam, por sua vez, atravessa fronteiras geográficas e delimitações culturais, para colocar a canção como potência de alteridade.

Em tempo:

Como parte da série UNESCO Grandes Mulheres da História Africana, caiu nas redes hoje o livro digital Njinga a Mbande: Rainha do Ndongo e do Matamba (para baixar clique aqui), mulher marcante na história de Angola do século XVII. O material ainda reúne um riquíssimo trecho pedagógico para professores levarem a temática às aulas. Imperdível.

Songhoy Blues lança “Résistance” em junho

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Foto: Africa Express

Na mão contrária da homogeneizante indústria fonográfica, o quarteto malinês Songhoy Blues segue propondo novas sensações sonoras. O grupo lança seu próximo álbum, Résistance, no dia 16 de junho, e dá sequência ao caminho de alteridade no cenário musical, aberto pelo disco de estreia Music in Exile (2015).

A presença da banda nos espaços midiáticos dos mais variados tipos – streaming, tevês, rádios, redes sociais, festivais etc. –, é experiência outra de fruição, que geralmente o chamado ocidente, viciado em produções norte-americanas e europeias, ignora. A primeira amostra desse novo trabalho é a funkeada “Bamako”, homenagem à capital do Mali, onde tudo começou.

O funk, entretanto, é apenas um dos elementos usados na linguagem, uma vez que a letra cantada em dialeto songai, as menções ao desert blues e a produção de Neil Comber (que já trabalhou com a M.I.A., apenas) colocam diferentes textos no mesmo espaço. Não há preocupação em pertencer a um enquadramento específico, mas o que importa é valorizar os movimentos.

Em tempo: Résistance ainda conta com as participações de Elf Kid e (do gênio imortal) Iggy Pop.

O track list de Résistance:

  1. “Voter”
  2. “Bamako”
  3. “Sahara” (featuring Iggy Pop)
  4. “Yersi Yadda”
  5. “Hometown”
  6. “Badji”
  7. “Dabari”
  8. “Ici Bas”
  9. “Ir Ma Sobay”
  10. “Mali Nord” (featuring Elf Kid)
  11. “Alhakou”
  12. “One Colour”

Alma jamaicana

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Cedric Myton (foto) e Ken Boothe estão tramando. Os lendários músicos (magos) jamaicanos trabalham juntos no álbum Soul Of Jamaica, produção que será lançada em 17 de março e vai reunir releituras de diversos clássicos da Jamaica, faixas que compõem o chamado rocksteady – termo usado para classificar o reggae em seus primeiros anos.

Gravado em uma região montanhosa de Trench Town, o disco vai reunir veteranos de Kingston e artistas contemporâneos, todos nascidos na efervescente terra do reggae, do ska e do dub, entre outras vertentes. Kiddus I é um dos jedis que participam do projeto. Em entrevista recente ao Guardian, ele destacou o processo analógico de gravação ao qual será submetido Soul Of Jamaica – os jamaicanos, aliás, são pioneiros em uma série de mixagens e técnicas que originaram o hip hop e a música eletrônica. Negar o digital, para esses veteranos, é resistência minoritária.

Já sobre as canções que entram no disco, destaque para duas preciosidades capazes de reforçar a importância do reggae na música produzida no último século, as faixas “Youth Man” (da antiga banda Congos, de Myton) e “Artibella” (Boothe). Ambas as releituras são importantes para jogar luz sobre uma questão importante: há diversos artistas interessantíssimos na Jamaica, além de Marley.

Com exceção de alguns polos nacionais importantes, a exemplo de São Luís (Maranhão), não é muito comum o consumo da música jamaicana que foge do eixo Wailers-Marley-Tosh (e eles são geniais, minha crítica é que precisamos olhar a riqueza de outras produções jamaicanas). E é justamente esse aspecto de ampliação de horizonte que faz de Soul Of Jamaica um belo convite para adentrar o universo enfumaçado de Kingston.

Blondie divulga faixa com participação de Johnny Marr

O lendário Blondie lança o álbum Pollinator no dia 5 de maio. O disco reúne algumas participações interessantes como Sia, Charli XCX, o guitarrista Nick Valensi (Strokes) e Dev Hynes, mas é na presença de Johnny Marr (Smiths), na canção “My Monster”, que o significado pós-punk/new wave é reforçado na linguagem.

Pollinator funciona como rearticulação da memória musical do próprio Blondie, uma vez que outras faixas divulgadas do trabalho resgatam o clima de obras clássicas como Parallel Lines (1978). Por esse motivo, contar com os acordes de Marr é reafirmar a ideia de que o Blondie dos tempos de CBGB não está confinado ao passado ou nos suportes de áudio. Não à toa, na turnê que irá passar pelo Reino Unido o grupo de Debbie Harry se apresenta no Roundhouse – casa de shows que já recebeu Patti Smith e Clash.

Pollinator mantém também diálogo estético com a música recente, ao contar com a guitarra de Nick Valensi, por exemplo. O grupo de Valensi, aliás, foi diretamente influenciado pelo Blondie, sobretudo no ótimo Is This It (2001). Esse aspecto joga com significações temporais e demonstra que a banda norte-americana não está preocupada com cristalizações, mas disposta a reaproveitar textos do passado e da música contemporânea.

“Ghost in the Shell”: reflexões sobre o pós-humano e o pós-industrial

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O primeiro trailer da série de mangá Ghost in the Shell foi divulgado na última semana e, seguindo a lógica da publicação que lhe deu origem, exibiu visual futurista com imagens que remetem a momentos Ridley Scott, entre outros autores de ficção.

Na trilha sonora, a versão (remix) do produtor Ki Theory para “Enjoy the silence” (Depeche Mode) parece conectada ao filme na essência do ato de adaptar, o que também ocorre com o filme – já que este sua forma original, se é que podemos usar esse termo, possui linguagem de quadrinho. Não se trata de um aspecto negativo, mas considerar que reproduções e adaptações são formas artísticas do nosso tempo. Entretanto, há outra ideia que atravessa a obra, a estrutura de uma sociedade futurista hiperconectada e em constante simulacro.

Muitos autores discutiram a relação entre humanos e tecnologias, impossível não abordar essa temática hoje, uma vez que as pessoas circulam com telas e dispositivos em praticamente todos os espaços públicos. Jean Baudrillard, por exemplo, em sua obra fala sobre a erosão do sujeito, da política e da informação – no caso da mídia, podemos considerar que imagens aleatórias deixam de mediar, ou seja, temos uma mídia antimediadora por sua indiferença.

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Se o sujeito desaparece na superação da metonímia sobre a metáfora, na visão de Baudrillard, para a autora Dora Haraway ele se converte na figura metafórica do ciborgue, outra questão que aparece em Ghost in the Shell. Mas claro, longe do humano com recursos robóticos do filme, o ciborgue de Haraway ultrapassa o dualismo homem/mulher ao multiplicar as possibilidades de gênero.

Assim, a ficção que chega aos cinemas não deve ser lida como mero produto da indústria cultural, mas como possibilidade de reflexões sobre conceitos pós-humanos da era pós-industrial. Somos hiperconectados, mas existe ética nessa comunicação em meio ao espetáculo técnico-imagético? Há muitas configurações de corpos possíveis, por que ainda enxergamos dicotomias? Sobre tais aspectos, Haraway e Baudrillard, aplicados a certas produções futuristas, despertam provocações acerca do mundo tecnológico, que nem sempre significa avançado.

O documentário sobre os Stooges e uma cena que moldou o punk

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O que as atitudes chocantes de Sex Pistols, Richard Hell e Dead Boys têm em comum? Esses grupos compartilham uma série de elementos que, cada qual à sua maneira, sintetiza a postura do punk rock: performances incendiárias, posturas que provocam arrepios nos estratos conservadores da sociedade e uma parede sonora rústica, barulhenta e de poucos acordes.

Um dos pais desse estilo é o grupo norte-americano Iggy and the Stooges. O documentário Gimme Danger, do cineasta Jim Jarmusch, que estreia em outubro nos Estados Unidos traz um ingrediente especial proporcionado por cenas raras. Em uma delas, a lendária banda toca em Cincinnati, em 1970, apresentação marcada por uma performance irresistível de Iggy – de linguagem caótica, digerida e seguida por muitos grupos do chamado “punk 77”, a exemplo da arte que estampa a capa do primeiro álbum do Damned.

Um trecho do filme que mostra essa apresentação foi divulgado nesta semana – confira aqui. A música (gritada) é “1970”, do ótimo Funhouse.