São Paulo recebe mostra de cinema uruguaio

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O Consulado Geral do Uruguai em São Paulo, em parceria com Instituto Cervantes, traz à cidade uma mostra gratuita de cinema uruguaio, entre os dias 21 e 25 de agosto. O evento exibe cinco trabalhos importantes na história da produção cinematográfica do país.

Os filmes que compõem a mostra são: Artigas, La Redota (César Charlone), Los Modernos (Mauro Sarser), Mal Día Para Pescar (Alvaro Brechner), Rambleras (Daniela Speranza) e El Baño del Papa (César Charlone). Destaque para a presença do diretor César Charlone, que participará de um debate/bate-papo com o público presente após a projeção de seus filmes.

Trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer parte da produção cinematográfica de um país muito importante para a América do Sul, sobretudo por representar uma postura de vanguarda no campo de políticas sociais (descriminalização do aborto, legalização da maconha etc.). Em tempos de retrocessos na região (não apenas no Brasil), é preciso olhar para o Uruguai.

Programação

Sessão de abertura: 21/8 – O Banheiro do Papa (El Baño del Papa) – com a presença do diretor, César Charlone, que participará de um debate/bate-papo com o público presente após a projeção.  Direção: César Charlone, Enrique Fernández/2007/90 minutos/ 10 anos

22/8 – Rambleras

Direção: Daniela Speranza/2014/93 minutos/livre

23-8 – Mau Dia para Pescar (Mal Día Para Pescar)

Direção: Alvaro Brechner/ 2009/100 minutos/14 anos

24/8 – Os modernos (Los Modernos) – Direção: Mauro Sarser / 2016/135 minutos/16 anos

25/8 Artigas, La Redota – com a presença do diretor, César Charlone, que participará de um debate/bate-papo com o público presente após a projeção. Direção: César Charlone/2011/108 min/livre

Serviço:

Mostra de Cinema Uruguai 2017

Onde: Instituo Cervantes São Paulo

Avenida Paulista, 2439

De 21 a 25 de agosto

Das 19h as 22h

Gratuito

QOTSA: um minuto de “garage punk”

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O Queens of the Stone Age lança no dia 25 de agosto o álbum Villains e o grupo de Josh Homme divulgou ontem o teaser com um trecho da faixa “Here. We. Come.” (vídeo abaixo), deixando à mostra um minuto de garage punk.

O aspecto que marca o porvir sonoro do QOTSA é o encontro de Dead Kennedys com garage 60, no estilo “banda de porão” que enfrenta o mainstream com distorção e rapidez. Vem coisa boa aí.

Gorillaz: o experimental, o real, o virtual

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O grupo Gorillaz, liderado pelo combativo Damon Albarn, lançou neste ano o álbum Humanz e desembarca na América do Sul em dezembro para o Bue Festival (Argentina). Na última semana, uma apresentação da banda ocorrida na cidade de Colônia (Alemanha) vazou na íntegra na web, deixando pistas da turnê que vem ao território latino-americano em breve.

A virtualidade do grupo traz uma série de questões acerca das relações banda/público e estúdio/show. Se no âmbito virtual das telas e/ou armazenamento fonográfico o Gorillaz é composto por integrantes-animação, no palco Albarn e companhia se apresentam como músicos reais, enquanto paradoxalmente os desenhos emergem no telão para estabelecer o jogo imagético dos tempos de imagem-valor.

Musicalmente o som do Gorillaz combina dance, hip hop e indie. No entanto, no show os recursos sintéticos do estúdio que reduzem a presença de vozes e instrumentos tocados dão lugar a uma banda robusta, com quatro backing vocals, baixo, guitarra, bateria, teclado e piano. O desencaixe e combinações não-lineares entre o acústico e o eletrônico são as grandes sacadas do grupo. Ainda há fôlego para participações especiais, como a de Jehnny Beth, do incrível Savages, em “We Got the Power”. Baita show.

Adriano Cintra divulga demo com 13 faixas

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Foto: reprodução do perfil do artista no Facebook.

O músico e produtor Adriano Cintra divulgou nesta semana uma demo com 13 faixas, na sua página do Facebook. O trabalho reúne canções que mesclam boas referências acumuladas ao longo da trajetória de Adriano. Em “Backfiring”, por exemplo, há boas doses de New Order, enquanto “Sometimes You Just Do” remete à sua antiga banda Cansei de Ser Sexy – grupo que surgiu em um dos períodos mais interessantes do underground de São Paulo. Enfim, temos aí boas doses de pop, anos 80 e electro rock.

2017 Demos é fruto de um período de 24 dias de gravação, que segundo o próprio músico refletem a imersão do artista em seu próprio tempo criativo. Ao postar o link na rede social, Adriano escreveu o seguinte “Em 24 dias eu compus/fiz as demos dessas 13 músicas. Tem mais uma que só vai pro ‘disco’ que vai estar logo mais nos streamings de suas preferências. Amanhã vai pra mixagem, só assim pra eu parar. Teve uma hora que eu achei que ia fazer um disco duplo mas daí eu fui ouvir uns discos duplos e sei lá, achei meio vyagy

PJ Harvey e sua geopolítica sônica

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A cantora britânica PJ Harvey tem inserido nos seus últimos trabalhos temáticas geopolíticas de forma poética, enfrentando assim o contexto pop meramente comercial. À semelhança de outros artistas, que em tempos distintos aderiram a questões políticas, PJ tenta contrapor, por meio da linguagem, um momento em que a barbárie adentra o senso comum como poder disciplinar. Brecht certa vez mencionou, no auge do fascismo na Europa, que vivia tempos em que era preciso defender o óbvio, tamanha a ignorância de quem se rendia ao discurso do autoritarismo.

Em seu novo single, “The Camp”, PJ Harvey narra a jornada de crianças deslocadas com suas famílias à região de Vale do Beca, no Líbano, parceria artística com o fotógrafo Giles Duley – são dele as imagens que ilustram o ótimo vídeo da faixa. Os vocais são divididos com o músico egípcio Ramy Essam.

Muitos sentidos emanam de “The Camp”, e talvez o mais significativo aos tempos atuais seja o fato de a cantora jogar luz sobre uma realidade que nos permite questionar o “progresso capitalista”. A parceria com Essam, por sua vez, atravessa fronteiras geográficas e delimitações culturais, para colocar a canção como potência de alteridade.

Em tempo:

Como parte da série UNESCO Grandes Mulheres da História Africana, caiu nas redes hoje o livro digital Njinga a Mbande: Rainha do Ndongo e do Matamba (para baixar clique aqui), mulher marcante na história de Angola do século XVII. O material ainda reúne um riquíssimo trecho pedagógico para professores levarem a temática às aulas. Imperdível.

Racionais MC’s: 20 anos de “Diário de um detento”

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O impacto midiático provocado pelo longo discurso do grupo Racionais MC’s, na MTV, após o grupo vencer o prêmio mais importante da noite, colocou no cenário mainstream vozes de artistas nascidos na periferia de São Paulo. Difícil recordar na história da música pop nacional momento tão grandioso, no qual discursos geralmente hegemônicos sofreram abalo desse porte.

“Diário de um detento”, lançado em 1997, atravessou o âmbito da circulação musical restrita a quem vivencia a desigualdade brasileira e entrou nas tevês, rádios, aparelhos MP3 e conexões de streaming da classe média. Trata-se de um rap de embate comunicacional sônico (me refiro à questão do som, o efeito que emana desse produto “música gravada”), que entrou no embate narrativo sobre a situação do país, denunciado situações esquecidas pela grande mídia.

Menção ao jornalista André Caramante, do coletivo Ponte Jornalismo, pois recordei a importante marca – os (quase) 20 anos da aparição do grupo na MTV! – após assistir ao vídeo publicado por ele no Facebook, cuja produção é assinada pela Red Bull Station. O grupo de rap, aliás, ganha a partir deste mês importante exposição na produtora localizada no Centro de São Paulo, evento que celebra seus 30 anos de história.

Os Racionais passaram por variados experimentalismos e transitaram por diferentes vertentes musicais. Trajetória que começa nas bases elaboradas com samples e em seguida parte para produções instrumentais. O “ao vivo” sempre marcado por KL Jay usando o toca-discos como um guitarrista (ou qualquer outro instrumento), mixando e alterando gravações para as vozes de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock.

A seguir o ótimo vídeo (análise) produzido pelo pessoal da Red Bull Station, com observações que vão além da letra e adentram o campo semiótico – afinal, cenário enunciativo e discurso são conceitos fundamentais para captar toda a potência comunicacional da canção.

Show de Pete Doherty é “homenagem” ao Brasil

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Acabei de ler uma crítica no site do Estadão sobre o show do músico Pete Doherty (Libertines). O texto descreve uma aparição cambaleante do músico que, ao que parece (não assisti ao show), conduziu a apresentação doidão. O mesmo cenário enunciativo do ethos roqueiro que já orbitou por Cobain, Iggy Pop e Sid Vicious.

No ano passado vi os Libertines no Popload Festival e curti  – aliás, o último álbum do grupo, Anthems For Doomed Youth (2015), é ótimo. Sobre o jornal narrar um Doherty combalido, creio que a apresentação deve ser lida como metáfora dedicada a um Brasil em ruínas, triste momento no qual assistimos a uma polícia varrer como lixo pessoas doentes, no local chamado pela mídia (burguesa) cracolândia. Ou, ainda no âmbito da tragédia, o que dizer de um governo ilegítimo que convoca o exército? Ou ainda o massacre conduzido pela polícia do Pará que matou dez pessoas?

Nessas circunstâncias descritas, o desleixo de Doherty deve ser entendido como “homenagem” ao Brasil atual, e nada melhor que um artista, por meio de sua performance, demonstrar a gravidade de uma situação que alguns setores do país insistem em não enxergar. Portanto, Doherty sintetizou muito bem nossa melancolia, descrença e escombros durante seu show no último dia 24, no Cine Joia.

Manchester, lágrimas e música pop

Inevitável também é não citar a triste notícia que recebemos no começo da semana, o atentado em Manchester, durante show da cantora Ariana Grande. Sobre isso, deixo aqui um ótimo depoimento do pesquisador Fabrício Silveira (UNISINOS), que no ano passado publicou o ótimo “Guerra Sensorial – Música pop e cultura underground em Manchester” (foto abaixo).

“Um bombardeio alemão devastou o centro de Manchester durante a Segunda Grande Guerra. O imaginário bélico, depois disso, ganhou uma tradução muito particular no pós-punk produzido na região no início da década de 1980. Mais tarde, na metade dos anos 1990, a cidade foi outra vez atingida, num atentado a bomba assumido pelo IRA.

A música pop feita no local, no período, não passou ao largo, assumindo o fato como tema e, mais uma vez, como experiência sensorial a ser lembrada e reproduzida.

Hoje, Manchester foi alvo de uma ação terrorista num show da cantora Ariana Grande. É impressionante o modo como terror e música pop parecem ali se alimentar, numa espécie de rebatimento mútuo, cheio de nuances e súbitas explosões.

O livro que publiquei no ano passado tentou pautar o debate. O triste acontecimento de hoje dá ao trabalho um tom premonitório, que não é nada mais, talvez, do que a infeliz comprovação de que algo verdadeiro havia sido captado e intuído”.

livro fabrício