Alan Vega foi alternativa ao mainstream

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Martin Rev e Alan Vega (Suicide).

A morte do vocalista da dupla Suicide Alan Vega, na última semana, representou duro golpe na cena musical que emergiu como contraponto à música mainstream nos Estados Unidos, ao final da década de 1970. Semente do punk que explodiu em 1977, esse cenário trouxe nomes como New York Dolls, Blondie, Ramones, Richard Hell, Patti Smith e, claro, o ótimo Suicide.

No caso da dupla Vega e Martin Rev, este operador de sintetizadores e bateria, a influência foi estendida ao campo da música eletrônica por meio de uma linguagem de agressiva textura sintética e elementos rockabilly. Assim, o álbum de estreia Suicide (1977) codificava signos distintos que rompiam com qualquer associação aos produtos midiáticos de sua época, sobretudo por conta da parede sonora controlada por Rev que sedimentava a performance de Vega – que chegou inclusive a enfrentar o hostil e difícil público do punk britânico.

O trabalho do Suicide foi alternativa ao mainstream e hoje é celebrado por nomes como Primal Scream e Savages. Ambos, aliás, chegaram a gravar uma bela versão para “Dream Baby Dream”. Mas a lista de influenciados é longa – a Pitchfork publicou nesta semana uma ampla relação de artistas que beberam nessa fonte sonora –, com destaque ao sample de “Ghost Rider” usado pela cantora M.I.A na faixa “Born Free”.

Para homenagear Vega, finalizo este texto com ótimo álbum de estreia do grupo, obrigatório em qualquer discografia pré-punk, seguido pela versão do Savages para “Dream Baby Dream” e a pedrada “Born Free”.

 

 

O show do Savages. O rompimento com o espaço tempo

O grupo Savages, que neste ano lançou o ótimo Adore Life, se apresentou na última semana no 9:30 Club, em Washington, com direito a registro audiovisual na plataforma NPR – que compartilhamos aqui. O lugar pequeno e o impacto da linguagem visual das integrantes da banda, no entanto, transportam o espectador ao final da década de 1970, auge do movimento punk e seu desdobramento pós-punk.

O Savages, como já falamos aqui em outras oportunidades, faz claras alusões a essa fonte sonora embora insira no âmago de sua obra textos que discutem o mundo contemporâneo. A semiose que opera em Silence Yourself (2013) e Adore Life (2016) geralmente recebe associações com o trabalho do grupo Siouxsie & the Banshees, mas em meio à sua intertextualidade é possível encontrar outros fragmentos da longínqua era pós-punk, como o conceito sombrio de The Flowers of Romance (1981), discão do PIL.

Impossível não citar a performance da Jehnny Beth, que parece também materializar esses significados distantes e modelizá-los à sua maneira, em nosso tempo. Por esses e outros motivos acho o Savages uma das bandas mais legais do rock atual.

A garagem e o show da banda Savages

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Jehnny Beth, do Savages.

 

A banda britânica Savages divulgou nesta semana uma performance de quatro canções – “Mechanics”, “Something New”, “The Answer”, “Adore” e “Hit Me”, que ficou fora do primeiro álbum do grupo, Silence Yourself –, gravada no francês Carrere Studio, e dirigida por Antoine Carlier. Novamente, como já havia ocorrido em outros vídeos, as meninas trazem a dramaticidade de imagens poderosas à proposta poética das letras das canções, e ampliam as significações de sua obra.

A densidade semiótica que está em jogo neste trabalho, e que o Savages articula desde o primeiro álbum, reúne aspectos simbólicos à luz da ideia underground dos shows punk da década de 1970. No entanto, o vídeo que exibe o show de curta duração aciona também a ideia de ensaio, uma vez que as integrantes da banda formam um círculo no qual podem observar suas respectivas expressões e movimentos, o que destoa da postura voltada ao público das apresentações.

Pode-se considerar que, no decorrer do vídeo, há uma ideia de promover o encontro da proposta artística que nasce no ambiente da garagem (ou porão) com a configuração da apresentação ao vivo, que no caso das vertentes marginais do rock ocorrem em pequenos clubes, tão compactos quanto o local de ensaio. E o encontro das imagens com a significação das canções agrega outros textos, inclusive no seu caráter literal de discurso escrito, o que reforça essa energia que ventila dos ambientes alternativos, a exemplo de trechos como: I’ll go insane, da canção “The Answer”.

A gravação pode ser conferida no site da publicação DIY.

O novo vídeo do Savages: uma ode ao mosh

O álbum de estreia do grupo Savages, Silence Yourself, foi um dos grandes discos de 2013. Meses depois, escaladas para tocar no Lollapalooza São Paulo, Jehnny Beth, Gemma Thompson, Ayşe Hassan e Fay Milton trouxeram a um festival de grande porte a energia dos clubes pequenos da cena punk inglesa de 1977 – vanguarda que, caso voltasse no tempo, a banda poderia perfeitamente integrar, ao lado de Siouxsie and the Banshees, X Ray Spex e The Slits.

Essa energia fora sintetizada no vídeo da canção “The Answer” (confira abaixo), divulgada pelo Savages hoje e que irá integrar o próximo álbum da banda, Adore Life, previsto para 22 de janeiro. As imagens mostram as meninas tocando em uma espécie de galpão abandonado, esteticamente perfeito para uma ocupação musical alternativa, onde moshs são praticamente obrigatórios – ritual que integra o devir anarcopunk.

Musicalmente, a faixa “The Answer” talvez se afaste um pouco da linha pós-punk à qual o Savages geralmente é associado, para experimentar algo mais stoner, que flerta até com os primeiros trabalhos do sueco Hellacopters. O que indica que Adore Life deve ser tão intenso quanto o álbum de estreia da banda, a começar pelo punho cerrado à capa do disco, arte que desde já adorei.

Resumo musical

Johnny evoca Depeche Mode

Anos 80 em estado puro. O competente Johnny Marr divulgou nesta semana o lançamento de um single durante o já tradicional Record Store Day (data na qual lojas especializadas em discos oferecem promoções especiais). No lado A, Marr evoca o Depeche Mode com uma ótimo versão para a também ótima “I Feel You” (vídeo abaixo). Já o lado B, outra lindeza oriunda dos anos 80: “Please Please Please Let Me Get What I Want” – de seu ex-grupo Smiths. Muito classe!

Mais uma faixa do novo álbum Best Coast. Apenas

O Best Coast prepara o lançamento de seu próximo álbum, California Nights, previsto para chegar às lojas em 4 de maio. Após divulgar a faixa-título do novo trabalho, o grupo liderado pela vocalista Bethany Cosentino mostrou ao público nesta semana a bela “Heaven Sent”, que diferente da canção que dá nome ao disco, soa ensolarada como a Califórnia do Best Coast.

MIA entre tweets e canções

A produção musical híbrida da cantora MIA não é novidade. Tão movente quanto a sonoridade da artista, é a maneira com a qual ela trabalha, sempre inquieta, divulgado suas empreitadas e defendendo posicionamentos políticos nas redes sociais. Na última semana, após divulgar a faixa “All My People”, ela afirmou que mais novidades surgiriam, e não demorou para a cantora postar, na plataforma SoundCloud, a canção “Can See Can Do” – que musicalmente tem um pezinho no nosso funk. Junto com a faixa, ela escreveu o seguinte (em caixa alta mesmo): “DEMOCRACY CONVERSATIONS ! TAMILS ARE STILL WAITING ! AND NO MY BEATS ARE NOT BETTER WITHOUT MY POLITICX”. Ela é demais.

Documentário sobre o Damned estreia no SXSW

Dirigido e produzido por ninguém menos que Lemmy Kilmister (Motörhead), o documentário The Damned: Don’t You Wish That We Were Dead estreia na edição deste ano do festival SXSW – que começa neste final de semana. Trata-se de um belo recorte sobre a trajetória de um dos grupos mais importantes do punk rock britânico: o Damned. Entre os personagens que narram essa história, além obviamente dos integrantes da banda, há depoimentos de nomes como Chrissie Hynde (Pretenders), Mick Jones (The Clash), Steve Diggle (Buzzcocks), Lemmy Kilmister (Motorhead) e Dexter Holland (The Offspring), entre outros. O documentário ainda não tem data de estreia aqui no Brasil.

Savages toca faixa inédita durante show em Nova Iorque

O Savages passou por Nova Iorque em janeiro, mas somente agora, por meio das redes sociais, a gente ficou sabendo que o grupo britânico tocou a inédita “Adore” por lá. Segundo a incrível vocalista Jehnny Beth, trata-se de uma canção sobre “vida e morte”. Repare que o show ocorreu em um lugar pequeno, chamado Mercury Lounge, que facilmente remete aos clubes punk do final dos anos 70.

Resumo musical

Arctic Monkeys toca Tame Impala

O grupo Arctic Monkeys, maior banda do planeta hoje, resolveu fazer uma releitura da canção “Feels Like We Only Go Backwards”, do contemporâneo e psicodélico Tame Impala, durante uma visita ao programa Like a Version. Como em outras ocasiões, os representantes do grupo foram o vocalista Alex Turner e o baterista Matt Helders, e acho que não preciso dizer que a versão ficou ótima (haha). Dizem por aí (eu disse, dizem!), que a banda deve vir ao Brasil no final deste ano para apresentações, fora de grandes festivais, como superbanda mesmo.

 

O retorno triunfal do gênio Morrissey

A saúde do grande Morrissey parece estar melhor. De volta aos palcos, o ex-líder do grupo britânico Smiths atualmente está trabalhando no lançamento de um mais álbum de inéditas, que terá 20 faixas, um bom motivo para os fãs festejarem. O trabalho irá se chamar World Peace Is None of Your Business, e deve chegar às lojas em julho. Nesta semana, Moz se apresentou na Califórnia e mostrou ao público algumas canções novas, como “The Bullfighter Dies”, a faixa que deverá dar nome ao álbum e “Earth Is the Loneliest Planet”, que você confere a seguir. O músico segue em turnê pelos Estados Unidos e a gente torcendo para ele vir ao Brasil (hehe).

 

Semana Black Keys!

O Black Keys voltou a bombar nos sites dos principais veículos especializados em música nesta semana. Após anunciar o álbum Turn Blue, que será lançando na próxima semana, a dupla divulgou o vídeo do primeiro single do disco, “Fever”. Dei uma pesquisada rápida hoje na web e descobri que o novo álbum pode ser ouvido – pelo menos até agora, hehe – no Youtube. O som está mais cadenciado, mas continua bem bom.

 

O novo vídeo de dez minutos das Savages

O grupo Savages divulgou nesta semana o vídeo, de dez minutos, da canção “Fuckers”, faixa que integra o EP que foi lançado no último dia 5 de maio, acompanhada pelo cover do Suicide “Dream Baby Dream”. Durante a passagem do grupo pelo Lollapalooza Brasil, em abril, a banda tocou essa canção. Devo admitir que certamente foi um dos grandes momentos do evento. A atmosfera do clipe remete aos bons tempos do punk rock britânico, no longínquo ano de 1977.

 

Courtney divulga vídeo novo e confirma shows na Inglaterra 

Sempre polêmica, a roqueira Courtney Love pretende voltar a fazer barulho no cenário musical com o lançamento do single-dobradinha “Wedding Day”/”You Know My Name”, lançado no último dia 4 de maio. Nesta semana, a cantora divulgou o vídeo da faixa “You Know My Name”, e também confirmou dois shows no Reino Unido. Apesar de não ser oficial, a chegado do single ao mercado pode “puxar” o lançamento de um álbum de inéditas, vamos aguardar.

Um peregrino absorto no Lollapalooza 2014

Lolla parte 1: a peregrinação das massas

Preparo físico. Este era o quesito necessário para acompanhar a maratona de shows do Lollapalooza 2014, e a considerável distância existente entre os palcos – que exigia certa peregrinação das massas indie-roqueiras. O lado bom é que o som de uma atração não interferiu no som da outra, o lado chato, é que as pernas foram bastante exigidas. Mas em suma, o novo formado do festival está aprovado.

Sábado (5), o sol forte do começo de tarde fritava a cabeça da molecada quando o stroke Julian Casablancas subiu ao palco para uma apresentação, digamos, bem estranha. O som não estava bom e o repertório soou esquisito. Não sei, mas logo à primeira audição algumas faixas do novo álbum do músico (que deve sair em breve) parecem difíceis, sem contar que ele forçou um estilo gritado de cantar fora do contexto (achei). O que salvou o show de um desastre maior foi “Take It Or Leave It”. Só.

Já a cantora Lorde mostrou o porquê do seu hype, tocou praticamente seu álbum de estreia na íntegra e teve o público nas mãos do início ao fim.  Presença de palco admirável, setlist com o hit “Royals” – que nem de longe é a melhor canção da moça – e a inusitada cover de “Hold My Liquor”, do Kanye West. Genial. Em seguida, fiz uma conexão Nação Zumbi-NIN. Peguei o começo da banda do Recife e o final do grupo liderado pelo Trent Reznor. Saldo positivo: batuquei ao som do maracatu-samba-rock “Samba Makossae” e ainda consegui ver o Nine Inch Nails tocar “Hurt” – impossível não lembrar de Johnny Cash.

Vale deixar aqui uma menção especial ao duo britânico Disclosure. Não sei até onde esta ótima dupla pode chegar, mas o fato é que o Disclosure foi “a atração” do primeiro dia do Lolla 2014. Com o repertório focado no ótimo Settle, discão que lançou a dupla, o Disclosure trouxe ao palco Interlagos a atmosfera sonora da dance music dos anos 90, contextualizada com o cenário musical de hoje, com belíssimas vozes inseridas em meio às batidas e efeitos sonoros. Impecável.

Lolla parte 2: absorto…

Domingo, dia 6. Entrei pelo Portão 9 (acho que era esse o número) e atravessei o mais rápido de pude, do palco Interlagos ao Onix, onde o Johnny Marr tocaria. A sorte estava comigo, pensei que show fosse começar às 14h em ponto, cheguei às 14h05, desesperado, e fiquei sabendo que ainda dispunha de quinze minutos. Foi uma ótima notícia saber que eu estava errado, Marr e sua banda estavam programados para tocar às 14h20.

A correria se justifica pelo fato de eu ser um grande fã do grupo Smiths, e com isso não poderia deixar de ver o Johnny Marr – e eu sabia que o setlist seria recheado de clássicos da banda britânica. Além disso, o álbum solo do cara, The Messenger, é um belo trabalho. Em determinado momento, pensei: “é isto, o show está ótimo”, quando Marr anuncia uma “surpresa” e chama ao palco o baixista Andy Rourke para formar um “meio Smiths”. Morri. Juntos, tocaram o clássico “How Soon Is Now?”. Ao final, para quase arrancar lágrimas do autor deste texto, Marr tocou uma das canções da minha vida, “There’s A Light That Never Goes Out”. Novamente morri.

Permaneci por um tempo absorto, e em seguida retornei, aos poucos. Hora de seguir rumo ao palco Interlagos, para ver as meninas do Savages. Me senti em Londres, ou Manchester, no final da década de 1970. A banda inglesa Savages foi intensa, com todos os elementos de pós-punk possíveis, que vez ou outra ficam simplesmente puro punk, com baixo, guitarra e bateria unidos em prol de uma agressividade romântica ímpar. E a vocalista Jenny Beth é de outro planeta, parece reunir um pouco de Ian Curtis e Siouxsie Sioux (dá pra imaginar?). Acho que vou ficar alguns dias cantarolando “No Face” e “City’s Full”. Grande show.

Tudo bem, o Pixies veio sem a Kim Deal, que não faz mais parte da banda, mas nem por isso o show deixou de ser especial. Foram mais de 20 canções (acho que perdi a conta, hehe), com praticamente todos os clássicos do lendário grupo norte-americano, destaque para “Hey”, “Gouge Away” e a baladinha clássica “Here Comes Your Man” – e algumas boas faixas do último EP lançado por Francis Black e companhia. Lindo, lindo, lindo. Ah, vi o final do Jake Bugg também, o garoto-prodígio que faz um folk rock contemporâneo e que tem recebido boas críticas. Acho que peguei as três ultimas canções, entre elas o belo hit “Lightning Bolt”, mas o fato que me fez dizer: “esse moleque é legal”, foi a versão brilhante para “My My, Hey Hey”, do Neil Young.

Minha dúvida cruel foi escolher entre Arcade Fire, banda que lançou recentemente o lindo Reflektor, e o New Order, que apesar de não estar no auge é um clássico que eu ainda não havia visto. Decidi forçar as pernas e tentar pegar um pouco de cada apresentação. Deu certo. Assisti às cinco (ou seis, não lembro) primeiras faixas do Arcade Fire – consegui ver “Reflektor”, “Flashbulb Eyes” e “The Suburbs”, entre outras – e voei para o New Order com tempo hábil de ver a reta final do show, que teve o hino “Love Will Tear Us Apart”, do pré-New Order Joy Division como momento derradeiro. Casado, e quase sem voz, voltei pra casa com o sentimento de dever cumprido. Nos vemos em 2015, Lolla.