QOTSA: um minuto de “garage punk”

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O Queens of the Stone Age lança no dia 25 de agosto o álbum Villains e o grupo de Josh Homme divulgou ontem o teaser com um trecho da faixa “Here. We. Come.” (vídeo abaixo), deixando à mostra um minuto de garage punk.

O aspecto que marca o porvir sonoro do QOTSA é o encontro de Dead Kennedys com garage 60, no estilo “banda de porão” que enfrenta o mainstream com distorção e rapidez. Vem coisa boa aí.

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70 anos de Iggy Pop

Ross Halfin Photography
Foto: Ross Halfin.

O devir punk tem sua materialidade em Iggy Pop. Mesmo que muitos artistas tenham antecipado – a exemplo do garage rock dos anos 1960 – o que viria a ser o punk do final dos anos 1970, a performance de Iggy no palco reflete em muitos vocalistas que vieram depois dele. No entanto, no aniversário de 70 anos do roqueiro, é preciso pensar o artista não como algo estático, uma vez que ele é referência ao punk, mas movente e inquieto.

Por esse motivo separei alguns momentos na carreira de Iggy Pop que demonstram como sua criatividade superou tentativas de enquadramento.

Padrinho do punk (fase Raw Power)

À frente dos Stooges, Iggy Pop lançou os ótimos The Stooges (1969) e Fun House (1970), trabalhos que praticamente definiram os caminhos sonoros de gente como Sex Pistols, Clash, Ramones, Dead Boys, entre outros. Mas foi no álbum Raw Power (1973), no qual o grupo teve alterações em sua formação (com a morte de Dave Alexander, Ron Asheton foi para o baixo e James Williamson assumiu a guitarra), que o alicerce para o punk foi construído. Canções como “Search and Destroy”, “Your Pretty Face Is Going to Hell” e “Shake Appeal” reúnem a estrutura básica do punk: guitarra à moda Chuck Berry que se impõe aos demais instrumentos (no volume da gravação) e letras que questionam valores morais do público médio.

Iggy se reinventa (fase pós-Stooges)

Com o fim dos Stooges, Iggy Pop se aproxima do gênio David Bowie e grava com o artista inglês dois importantes discos: The Idiot (1977) e Lust for Life (1977). Nesses trabalhos Iggy se afasta de certa associação sonora com punk para explorar referências que vão de Kraftwerk a Joy Division – além do próprio Bowie. Grandes letras como as de “The Passenger” e “China Girl” são alguns exemplos marcantes desta fase.

Diálogo com novas gerações (fase Post Pop Depression)

Iggy Pop e o músico Josh Homme (Queens of the Stone Age) se reuniram com outros artistas do cenário atual – como Dean Fertita (também do Queens of the Stone Age) e Matt Helders (baterista do Arctic Monkeys) – para gravar o ótimo álbum Post Pop Depression (2016). O trabalho rendeu uma breve turnê mundial, mas sua importância está na dinâmica criativa de Iggy que, ao se aproximar de artistas mais jovens, também se deixou influenciar musicalmente por eles. Embora o disco estabeleça uma relação sonora com trabalhos de outrora (como The Idiot), inevitavelmente absorve estilos atuais materializados nas presenças de Homme, Helders e Fertita.

Um filme sobre Poly

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Pouquíssimas vezes a música viu surgir uma artista como Poly Styrene, vocalista e líder de uma das bandas mais incríveis do punk britânico: o X-Ray Spex. Na “história oficial”, o destaque é sempre voltado aos grupos formados por homens (Sex Pistols, Clash, Buzzcocks). No entanto, a ideia de um documentário sobre Poly, intitulado I Am A Cliché, que ainda está em fase de crowdfunding, visa romper com essa narrativa ao resgatar memórias (por meio de entrevistas, fotos e demais arquivos) capazes de contrapor os enquadramentos hegemônicos que delimitam a compreensão do passado.

O projeto é liderado pela filha da cantora, Celeste Bell, a escritora Zoë Howe e o diretor Paul Sng. O roteiro deve jogar luz sobre uma série de questões: como o fato de Poly Styrene ser filha de mãe escocesa e pai somali, o que parece deslocá-la para cenários contra-hegemônicos, antes mesmo de a artista formar o lendário X-Ray Spex – uma vez que dentro da representação de comunidade imaginada ela não se enquadrava na chamada “englishness” (Stuart Hall) –, seu trabalho à frente de uma importante banda punk e problemas de saúde.

O filme sobre carreira da incrível Poly (veja o trailer no vídeo abaixo), que não se resume ao punk, mas está situada no campo da luta feminista, é algo obrigatório para que as próximas gerações tenham acesso a uma leitura honesta do punk – vertente musical que corre à margem dos padrões do mercado, tanto pela rebeldia como também pela criatividade.

Iggy Pop, Thurston Moore e um diálogo sobre rock

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Iggy Pop e Thurston Moore participaram de uma conversa que acabou virando filme nas mãos do famoso selo independente (e também loja de discos) Rough Trade, no final de 2016. O diálogo parte de uma entrevista de Moore com Iggy a respeito do álbum Post Pop Depression, lançado por Iggy e sua superbanda – ao lado de Josh Homme, Matt Helders e Dean Fertita – no último ano, e em seguida joga luz sobre a lendária trajetória do líder dos Stooges.

Trata-se de uma narrativa cheia de memórias trazidas por dois gigantes do punk e garage rock – embora tais categorias sejam meros detalhes perto da grandeza de ambos. Em diversos momentos Iggy recorda dos tempos em que esteve ao lado de Dave Alexander e dos irmãos Ron e Scott Asheton, formação que gravou os clássicos The Stooges (1969) e Funhouse (1970), além da chamada “fase” Raw Power (álbum de 1973, que completou 44 anos nesta semana) – inaugurando não apenas o pré-punk, mas um conceito sonoro que valorizava distorções e outros sons, cujo objetivo não era gerar fruição no público, mas provocações e incômodos sensoriais.

Menção também às contribuições trazidas pelo entrevistador, uma vez que as percepções de Thurston Moore demonstram a influência dos Stooges na cultura pop e no som de seu Sonic Youth, grupo que deu continuidade a esse tipo de estética (ou contraestética) sonora.

A seguir os três capítulos na íntegra, que reúnem minutos valiosos de um diálogo sobre rock – e alguns momentos de jams sessions.

Iggy vira DJ, e toca Bowie

bowie e iggy

Coisa de brother. Na edição desta semana de seu programa radiofônico Iggy Confidential, que vai ao ar na BBC 6 Music, o pai do punk Iggy Pop dedicou duas horas de música para homenagear o amigo (e salvador) David Bowie. Ou seja, o ilustre DJ tocou uma seleção especial só de Bowie.

Sabe-se que Bowie e Iggy já firmaram diversas parcerias, principalmente quando o gênio britânico resgatou o então vocalista dos Stooges do fundo do poço. David Bowie produziu Raw Power (1973) – um dos discos mais incríveis de punk rock – e posteriormente, em 1977, assinou também a produção de The Idiot e Lust For Life, e isso não é pouca coisa.

A seguir a playlist com as faixas tocadas por Iggy Pop (confira o programa aqui), o que mostra que de David Bowie ele entende muito bem. Deixo ao final deste texto o vídeo da canção “DJ”, música que talvez Bowie dedicasse a Iggy após ouvir o programa da BBC: “I am a DJ, I am what I play”. Perfeito.

Boys Keep Swinging

Art Decade

John, I’m Only Dancing (Sax Version)

Black Country Rock

Station to Station

What in the World

Wild Is the Wind

The Prettiest Star (Single Version)

Moss Garden

Panic in Detroit

Dirty Boys

Moonage Daydream

Sound and Vision

Under Pressure

Diamond Dogs

Criminal World

Where Are We Now?

I Can’t Give Everything Away

Stay (US Single Edit)

TVC 15

Young Americans (Single Version)

Golden Years (Single Version)

Aladdin Sane

Dollar Days

Warszawa

 

O show do Savages. O rompimento com o espaço tempo

O grupo Savages, que neste ano lançou o ótimo Adore Life, se apresentou na última semana no 9:30 Club, em Washington, com direito a registro audiovisual na plataforma NPR – que compartilhamos aqui. O lugar pequeno e o impacto da linguagem visual das integrantes da banda, no entanto, transportam o espectador ao final da década de 1970, auge do movimento punk e seu desdobramento pós-punk.

O Savages, como já falamos aqui em outras oportunidades, faz claras alusões a essa fonte sonora embora insira no âmago de sua obra textos que discutem o mundo contemporâneo. A semiose que opera em Silence Yourself (2013) e Adore Life (2016) geralmente recebe associações com o trabalho do grupo Siouxsie & the Banshees, mas em meio à sua intertextualidade é possível encontrar outros fragmentos da longínqua era pós-punk, como o conceito sombrio de The Flowers of Romance (1981), discão do PIL.

Impossível não citar a performance da Jehnny Beth, que parece também materializar esses significados distantes e modelizá-los à sua maneira, em nosso tempo. Por esses e outros motivos acho o Savages uma das bandas mais legais do rock atual.

The Kills e o espaço de ensaio como elemento estético

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Compreender o sentido aplicado à determinada linguagem joga luz sobre uma série de significados. Ler a arte é adentrar o universo dos agenciamentos que opera na superfície e na substância dos produtos culturais, ou seja, a simplicidade da denotação dá lugar aos desdobramentos da conotação.

Quando o ótimo The Kills visitou a BBC 6 nesta semana, o mero espaço no qual a dupla Alison Mosshart e Jamie Hince tocou exibia também o desleixo estético típico dos locais de ensaio roqueiros. Sabe-se que o punk e o garage rock soam distorcidos e sujos na estrutura de seus arranjos, mas essa proposta é potencializada, na maioria das vezes, na linguagem visual de seus respectivos estúdios improvisados para ensaio – um porão, uma garagem ou um cômodo qualquer.

A proposta musical das canções estabelece assim relação com a expressão desse espaço de produção de sentido. Ao acionar tal significado, o Kills deixa também pistas sobre os caminhos sonoros que pretende seguir em seu próximo disco, Ash & Ice, cujo lançado ocorre em 3 de junho. No vídeo gravado para a BBC, a dupla toca a bela “Heart of a Dog”, canção de acordes básicos e efeito overdrive que se opõe à estrutura das grandes produções. O porão/garagem sujo é também determinante estético-sonoro.