Joe Strummer e a diversidade musical

“O convite é, então, tomado como fenômeno da diferença – que, para mim, decorre de um acontecimento – que provoca, ao mesmo tempo, ruptura, apelo e invocação de alteridades livres” (Wladimir Garcia, UFSC)

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No último dia 21 de agosto Joe Strummer completaria 65 anos. O líder do Clash e do Mescaleros geralmente é lembrado por seu legado denso, altamente produtivo: ajudou a fundar o movimento punk, lançou discos importantes à frente do Clash e por fim vivenciou uma virada sonora mergulhando no experimentalismo do Mescaleros. Esse trajeto criativo traz à tona um aspecto interessante, inerente à sua obra: a diversidade musical.

Joe parece ter sempre assumido uma posição de fronteira, ou seja, fora de qualquer estabilidade que pudesse delimitar seu trabalho. O fato de ser filho de diplomada e pertencer a uma classe média específica no contexto britânico não definiu sua trajetória – movimento contrário ao habitus conceituado por Bourdieu. Muito pelo contrário, Joe, ao produzir linguagem musical assume uma diversidade radical e convida o ouvinte que acompanha a seu trabalho a experimentar tal fruição – inclusive o artista valoriza o aparelho rádio, como se uma transmissão global pudesse espalhar sua mensagem. O nascimento em Ancara (Turquia) foi apenas um de muitos agenciamentos globais que atravessaram Joe e o posicionaram em um campo de alteridade sonora, capaz de enfrentar os enquadramentos da indústria fonográfica, que necessitam de padronizações.

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Essa diversidade começa na abertura do Clash ao reggae, ska, dub, hip hop e música afro-caribenha, do álbum homônimo ao Combat Rock (ver discografia!), e o grupo valoriza textos originados no Terceiro Mundo, ressignificados por meio de uma ética artística que celebra o encontro, o convite a mistura. Essa linguagem musical ocorre porque há uma práxis. A obra do Clash é nômade, não possui território fixo, suas canções (manifestos?) funcionam como uma máquina de guerra (usando aqui um termo de Deleuze e Guattari) que desafia a narrativa institucional (o estado) da música pop, centralizada no chamado Ocidente (eixo Europa/Estados Unidos).

No aniversário de Joe Strummer proponho celebrar a diversidade. Se há um poder que procura padronizar vidas, corpos e gostos (consumo!), encontramos também artistas que escapam a essas disciplinas. A seguir alguns momentos em que Joe propôs uma diversidade radical, no Clash e no Mescaleros.

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“#Internationalclashday”: a transmissão-manifesto da rádio KEXP

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A celebração da quinta edição do International Clash Day, idealizado pela The Joe Strummer Foundation – organização que realiza projetos sociais vinculados à música, e dá suporte a músicos que não possuem recursos, fundada por Joe Strummer, líder do Clash –, ganhou apoio da KEXP Radio nesta terça-feira (7). A adesão da emissora às homenagens prestadas ao grupo britânico The Clash ocorre em um momento político muito delicado, sobretudo para os norte-americanos (Trump), bem como outros focos da ascensão conservadora no mundo.

A programação que foi a ar hoje celebrou o Clash e grupos relacionados à temática da banda (questões políticas, vertentes do pré-punk e do punk rock e valorização da diversidade sonora). Juntaram-se à transmissão da emissora vinte estações, localizadas nos Estados Unidos, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Reino Unido.

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Em uma corajosa transmissão-manifesto, a KEXP justificou da seguinte forma a sua programação especial, inspirada no legado de Joe e seus correligionários:

“The message of The Clash, so influenced by the international sounds they grew up with, is both powerful and uplifting especially now in this time of struggle”, disse o locutor John Richards, durante o KEXP Morning Show ao apresentar a ideia do International Clash Day. E em seguida completou: “The Clash represents what KEXP is all about – music, rebellion, and pushing boundaries. KEXP is infused by international sounds, songs of protest and believe strongly in the power of the airwaves to affect change. That is why we are focusing on these three important pillars throughout the day. KEXP invites everyone to join us in celebrating this inclusive ‘public service announcement, with guitars”.

Intertextos na mídia

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Na mesma semana, a cantora Lady Gaga subiu ao palco do midiático Super Bowl e no início de sua performance mandou um trecho de “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie. Ao aproveitar o espaço no megaevento para citar Guthrie – músico que foi crítico notório do conservadorismo – a artista automaticamente se colocou em oposição ao atual presidente.

Outro dia uma amiga dizia que em tempos difíceis devemos nos apegar aos autores que admiramos, eu colocaria os músicos no mesmo patamar de importância. Seja na transmissão-manifesto da KEXP Radio ou na brecha encontrada pela cantora Lady Gaga, a música funciona como alternativa comunicacional que valoriza vozes divergentes.

Relação do Clash com os sons de Nova Iorque é tema de documentário da BBC

THE CLASH
(AP Photo/David Handschuh)

A ótima BBC Radio 6 exibiu nesta semana um documentário sobre a relação musical do Clash com Nova Iorque. Desde o segundo álbum da banda britânica, Give ‘Em Enough Rope (1978), quando Joe Strummer e companhia saíram em turnê pela primeira vez nos Estados Unidos, o grupo passou a absorver elementos sonoros da música norte-americana para elaborar suas principais obras.

Dividido em três partes, o documentário para rádio é conduzido por Don Letts, figura importante da cena punk inglesa – seja pelas discotecagens nos intervalos dos shows ou pelos documentários sobre o movimento musical que dirigiu. O especial ainda traz comentários de Mick Jones, Terry Chimes e do fotógrafo Bob Gruen, além de reforçar que durante os rolês pela cidade norte-americana o Clash encontrou artistas do porte de Afrika Bambaataa, Grandmaster Flash e Debbie Harry (Blondie).

O foco do trabalho é direcionado aos grandes shows que o grupo inglês fez em Nova Iorque, como a lendária temporada de 17 apresentações no Bond International Casino. Entretanto, é interessante notar como o Clash se envolveu musicalmente com fronteiras sonoras marginais, ao encontrar o reggae, o hip hop, o funk e o jazz (entre outras vertentes), afastando-se de uma estética punk cristalizada nas canções rápidas de três acordes.

Esse movimento do grupo e sua predisposição à mistura geraram obras de linguagem intertextual como Sandinista! (1980), cheio de canções de linguagem híbrida. Dentro desse conceito, ao jogar com conotações e construções intersemióticas, o Clash fez oposição inclusive a uma padronização industrial e midiática do “estilo punk”, o que credencia o grupo como um dos mais criativos do rock. Assim, o documentário da BBC é um belo registro desse momento artístico (para conferir clique aqui).

Abaixo outros momentos que ilustram a semiose sonora do Clash:

 

hip hop

 

sandinista

Resumo musical

O Blur e a inédita “There Are Too Many of Us”

O ícone britpop Blur lança no próximo dia 27 de abril o álbum The Magic Whip – após 12 anos, sim, faz um tempão. Nesta semana a banda liderada pelo criativo Damon Albarn divulgou o vídeo do segundo single do próximo trabalho do grupo, a canção “There Are Too Many of Us” – a primeira faixa divulgada do novo trabalho foi “Go Out”. O clipe é simples, mostra o Blur em um ambiente de estúdio, mas a canção é bem boa.

Johnny tocando Depeche Mode. Agora tem clipe

Este blog divulgou a incrível versão feita pelo competente Johnny Marr para a também incrível “I Feel You”, do grupo Depeche Mode, na última sexta-feira (13). Pois bem, nesta semana o guitarrista, eterno responsável pelos riffs mágicos dos discos dos Smiths, divulgou o vídeo que ilustra a canção (versão). Lembrando que: o lado b do single I Feel You será a canção “Please Please Please Let Me Get What I Want”, cujo lançamento está previsto para 19 de abril. Anos 80 em estado puro.

Documentário sobre Joe Strummer estreia em Londres

Joe “The Clash” Strummer visita a Espanha em 1997, concede entrevista para uma rádio local e diz estar em busca de um Dodge perdido. Essa é a temática que conduz o documentário I Need A Dodge!, documentário lançado neste mês sobre o lendário músico, morto em 2002. A pré-estreia ocorre no próximo dia 25 de março, em Londres, durante uma festa que irá reunir Charlie Harper (UK SUBS), Wayne Kramer (MC5), Rachid Taha, Martin Chambers (Pretenders) e discotecagem do diretor e DJ Don Letts. Apenas. Já que o documentário não tem previsão para chegar por aqui – acho que só vai rolar depois, em DVD, importado – a gente fica com o trailer. Londres chamando!

Alabama Shakes divulga faixa “Future People” e prepara novo álbum

Após o sucesso do disco Boys & Girls (2012), cuja turnê passou inclusive pelo Lolla Brasil, o grupo Alabama Shakes lança em 21 de abril seu segundo álbum, Sound & Color – e nem é preciso dizer que, quando um disco de estreia é bem-sucedido, a expectativa em relação ao segundo sempre aumenta. Nesta semana, o Alabama Shakes divulgou a faixa “Future People”, terceiro fragmento do novo disco disponibilizado para audição na web – a banda já havia mostrado “Don’t Wanna Fight” e “Gimme All Your Love”. Curti a guitarra funkeada, bela canção.

Matanza lança clipe da faixa “O Que Está Feito, Está Feito”

O grupo Matanza lança no início de abril o álbum Pior Cenário Possível, trabalho que traz a assinatura do produtor Rafael Ramos. Nesta semana a banda divulgou o vídeo do single “O Que Está Feito, Está Feito”, que exibe uma série de imagens de estúdio, dialogando com o processo de gravação do álbum. A canção vai integrar o novo trabalho do Matanza, e a sonoridade é um hardcore pesadão dos bons. Aumenta o som aí!

O olhar de Julien Temple sobre os primeiros passos do Clash

Joe Strummer, durante o primeiro show do Clash no Roxy, em Londres.

Há 40 anos o cineasta Julien Temple resolveu captar imagens de uma apresentação do grupo inglês The Clash, no recém-inaugurado Roxy. O material foi enriquecido por imagens de transmissões televisivas da época, protestos, movimentações da cena reggae londrina – combinação que reúne os ingredientes da receita musical clashiana, que colocou diversos elementos sonoros e culturais em contato com os três acordes tradicionais do punk rock.

Exibido pela BBC no último dia 1º de janeiro, The Clash: New Year’s Day ’77 é um resgate histórico que contextualiza o surgimento do Clash (e do movimento punk inglês) na Inglaterra de 1977 – ano no qual o estilo musical se consolidou na grande mídia. O documentário mostra cenas inéditas do Clash no clube Roxy (ainda sem o baterista Topper Headon), momentos de bastidores e figuras importantes do punk como o vocalista dos Sex Pistols, Johnny Rotten.

O conteúdo do filme assinado por Temple é um registro significativo de um dos momentos mais importantes da cultura pop e que até hoje reflete na música contemporânea. O filme assinado por Temple pode ser conferido na íntegra no YouTube (vídeo abaixo). Notícia boa para começar 2015!

O dia em que Chuck Berry analisou o punk rock

 

Uma das grandes virtudes do Facebook (e das redes sociais, de maneira geral) é que por meio dele às vezes temos acesso a informações que dificilmente teríamos em outros ambientes digitais. Pois bem, na última semana, enquanto gastava minutos ociosos visualizando a tal rede, eis que observo um link postado por uma amiga, que trazia um post do blog Music Ruined My Life, cujo texto resgatava uma entrevista concedida por Chuck Berry a um fanzine punk chamado Jet Lag!, em 1980.

A genial pauta – deixo aqui meus parabéns ao autor (ou autora) do texto – sugeria que o lendário guitarrista, e um dos precursores do rock, fizesse uma análise de algumas faixas de bandas clássicas de punk rock. Na relação de grupos a serem analisados por Chuck Berry estava a tríade máxima do punk: The Clash, Sex Pistols e Ramones – pelo menos entre os grupos surgidos após 1975, estes são os mais relevantes.

É impagável ler comentários de um artista cujos riffs de guitarra estão presentes em grande parte das composições punk, principalmente nos primeiros trabalhos dos grupos surgidos no chamado “punk 77”. Mesmo que o movimento punk tenha proposto um rompimento com o rock mainstream (à época o heavy metal e o rock progressivo), ele sempre fez uma alusão direta a uma volta ao básico, em outras palavras ao rock dos anos de 1950.

Abaixo você confere as duas páginas da matéria, que traz também uma entrevista na qual o lendário roqueiro fala sobre sua carreira. Repare que, durante a audição das faixas, ele tece elogios à sonoridade dos Pistols e do Clash, mas estranha a raiva dos vocais (haha). Já o contato com o som do Joy Division, outra banda analisada, faz Berry dizer: “souds like an old blues jam”. Uma entrevista deste porte eu não poderia deixar de compartilhar aqui no blog.

 

Resumo musical

Clash lives! Paul e Mick encontram Frank Ocean e Diplo

O projeto “Three Artists, One Song”, organizado pela marca Converse, conseguiu reunir Frank Ocean, Diplo e os ex-Clash Mick Jones e Paul Simonon. Este time dos sonhos, uma conexão entre passado e futuro, uma espécie de coletivo eletrônico-rap-punk, elaborou a canção “Hero”. O instrumental da faixa lembra um pouco “Straight to Hell”, do Clash, mas ganha mais aspectos dub com as participações de Diplo e Frank. Ficou bem legal. Ah, os caras também deram uma entrevista bacana durante o lançamento do evento patrocinado pela marca de calçados (clique aqui e confira). The Clash lives!

 

Inédita do Johnny Cash ganha vídeo

A lenda Johnny Cash teve algumas canções inéditas divulgadas no último mês. O material, grande parte gravado nos anos 1980, deve ser lançando na compilação Out Among the Stars, em 25 de março. Uma delas, a lindíssima “She Used To Love Me A Lot” (nome de canção poderosa), ganhou um vídeo nesta semana, assinado pelo australiano John Hillcoat. Repare que, ao adicionar no vídeo imagens que remetem a críticas sociais direcionadas à crise financeira da “pátria América”, o diretor brilhantemente deu outra interpretação para a letra. Essa “She” em questão deixou de ser uma garota. Gênio.

 

Iggy Pop e New Order tocam Joy Division. Sério!

A música e suas jams mágicas que vez ou outra entram para a história. Nesta semana eis que Iggy Pop e New Order, divindades do rock, subiram no mesmo palco, durante o Tibet House Benefit Concert, e juntos tocarem os clássicos  Joy Division “Love Will Tear Us Apart” e “Transmission”, além de “Californian Grass” – do próprio New Order. Estou aqui torcendo para o New Order resolver trazer o veterano Iggy Pop ao Lolla São Paulo, em algum cantinho em meio à bagagem da turnê.

 

Julian divulga nova faixa

O roqueiro Julian Casablancas, ex-Strokes, vai lançar seu próximo álbum neste ano, provavelmente em uma data bem próxima ao evento Lollapalooza São Paulo. A gente postou aqui no Cultura no Prato, há poucos dias, um teaser com trechos das possíveis faixas que irão integrar o novo trabalho do músico, e nesta semana o cantor decidiu “quebrar o mistério” e divulgar uma delas, chamada “Ego”, durante uma apresentação em Pensacola, Florida. Achei (só achei, ok?) que a faixa lembra muito o som feito pelo Strokes, o que não é algo ruim, mas pelo material publicado no teaser, a sonoridade tende a apresentar surpresas. Vamos aguardar.

 

Chvrches toca Lorde, e faz bonito

O Live Lounge, da BBC Radio, é um dos programas mais legais de música hoje. Fato. Na última semana, foi a vez do ótimo Chvrches visitar os estúdios da emissora britânica. Hum… Se você não conhece a temática do programa, vamos lá, eu explico: todos os artistas que visitam o Live Lounge precisam tocar uma canção de outro músico (ou banda), e o trio escocês mandou bem ao escolher a belíssima “Team” – sim, uma das faixas do disco de estreia da cantora Lorde, que vem ao Lollapalooza neste ano. Achei que ficou melhor que a original. Me julguem!