Um filme sobre Poly

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Pouquíssimas vezes a música viu surgir uma artista como Poly Styrene, vocalista e líder de uma das bandas mais incríveis do punk britânico: o X-Ray Spex. Na “história oficial”, o destaque é sempre voltado aos grupos formados por homens (Sex Pistols, Clash, Buzzcocks). No entanto, a ideia de um documentário sobre Poly, intitulado I Am A Cliché, que ainda está em fase de crowdfunding, visa romper com essa narrativa ao resgatar memórias (por meio de entrevistas, fotos e demais arquivos) capazes de contrapor os enquadramentos hegemônicos que delimitam a compreensão do passado.

O projeto é liderado pela filha da cantora, Celeste Bell, a escritora Zoë Howe e o diretor Paul Sng. O roteiro deve jogar luz sobre uma série de questões: como o fato de Poly Styrene ser filha de mãe escocesa e pai somali, o que parece deslocá-la para cenários contra-hegemônicos, antes mesmo de a artista formar o lendário X-Ray Spex – uma vez que dentro da representação de comunidade imaginada ela não se enquadrava na chamada “englishness” (Stuart Hall) –, seu trabalho à frente de uma importante banda punk e problemas de saúde.

O filme sobre carreira da incrível Poly (veja o trailer no vídeo abaixo), que não se resume ao punk, mas está situada no campo da luta feminista, é algo obrigatório para que as próximas gerações tenham acesso a uma leitura honesta do punk – vertente musical que corre à margem dos padrões do mercado, tanto pela rebeldia como também pela criatividade.

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Iggy Pop, Thurston Moore e um diálogo sobre rock

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Iggy Pop e Thurston Moore participaram de uma conversa que acabou virando filme nas mãos do famoso selo independente (e também loja de discos) Rough Trade, no final de 2016. O diálogo parte de uma entrevista de Moore com Iggy a respeito do álbum Post Pop Depression, lançado por Iggy e sua superbanda – ao lado de Josh Homme, Matt Helders e Dean Fertita – no último ano, e em seguida joga luz sobre a lendária trajetória do líder dos Stooges.

Trata-se de uma narrativa cheia de memórias trazidas por dois gigantes do punk e garage rock – embora tais categorias sejam meros detalhes perto da grandeza de ambos. Em diversos momentos Iggy recorda dos tempos em que esteve ao lado de Dave Alexander e dos irmãos Ron e Scott Asheton, formação que gravou os clássicos The Stooges (1969) e Funhouse (1970), além da chamada “fase” Raw Power (álbum de 1973, que completou 44 anos nesta semana) – inaugurando não apenas o pré-punk, mas um conceito sonoro que valorizava distorções e outros sons, cujo objetivo não era gerar fruição no público, mas provocações e incômodos sensoriais.

Menção também às contribuições trazidas pelo entrevistador, uma vez que as percepções de Thurston Moore demonstram a influência dos Stooges na cultura pop e no som de seu Sonic Youth, grupo que deu continuidade a esse tipo de estética (ou contraestética) sonora.

A seguir os três capítulos na íntegra, que reúnem minutos valiosos de um diálogo sobre rock – e alguns momentos de jams sessions.

O documentário sobre os Stooges e uma cena que moldou o punk

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O que as atitudes chocantes de Sex Pistols, Richard Hell e Dead Boys têm em comum? Esses grupos compartilham uma série de elementos que, cada qual à sua maneira, sintetiza a postura do punk rock: performances incendiárias, posturas que provocam arrepios nos estratos conservadores da sociedade e uma parede sonora rústica, barulhenta e de poucos acordes.

Um dos pais desse estilo é o grupo norte-americano Iggy and the Stooges. O documentário Gimme Danger, do cineasta Jim Jarmusch, que estreia em outubro nos Estados Unidos traz um ingrediente especial proporcionado por cenas raras. Em uma delas, a lendária banda toca em Cincinnati, em 1970, apresentação marcada por uma performance irresistível de Iggy – de linguagem caótica, digerida e seguida por muitos grupos do chamado “punk 77”, a exemplo da arte que estampa a capa do primeiro álbum do Damned.

Um trecho do filme que mostra essa apresentação foi divulgado nesta semana – confira aqui. A música (gritada) é “1970”, do ótimo Funhouse.

Relação do Clash com os sons de Nova Iorque é tema de documentário da BBC

THE CLASH
(AP Photo/David Handschuh)

A ótima BBC Radio 6 exibiu nesta semana um documentário sobre a relação musical do Clash com Nova Iorque. Desde o segundo álbum da banda britânica, Give ‘Em Enough Rope (1978), quando Joe Strummer e companhia saíram em turnê pela primeira vez nos Estados Unidos, o grupo passou a absorver elementos sonoros da música norte-americana para elaborar suas principais obras.

Dividido em três partes, o documentário para rádio é conduzido por Don Letts, figura importante da cena punk inglesa – seja pelas discotecagens nos intervalos dos shows ou pelos documentários sobre o movimento musical que dirigiu. O especial ainda traz comentários de Mick Jones, Terry Chimes e do fotógrafo Bob Gruen, além de reforçar que durante os rolês pela cidade norte-americana o Clash encontrou artistas do porte de Afrika Bambaataa, Grandmaster Flash e Debbie Harry (Blondie).

O foco do trabalho é direcionado aos grandes shows que o grupo inglês fez em Nova Iorque, como a lendária temporada de 17 apresentações no Bond International Casino. Entretanto, é interessante notar como o Clash se envolveu musicalmente com fronteiras sonoras marginais, ao encontrar o reggae, o hip hop, o funk e o jazz (entre outras vertentes), afastando-se de uma estética punk cristalizada nas canções rápidas de três acordes.

Esse movimento do grupo e sua predisposição à mistura geraram obras de linguagem intertextual como Sandinista! (1980), cheio de canções de linguagem híbrida. Dentro desse conceito, ao jogar com conotações e construções intersemióticas, o Clash fez oposição inclusive a uma padronização industrial e midiática do “estilo punk”, o que credencia o grupo como um dos mais criativos do rock. Assim, o documentário da BBC é um belo registro desse momento artístico (para conferir clique aqui).

Abaixo outros momentos que ilustram a semiose sonora do Clash:

 

hip hop

 

sandinista

A cantora punk e as minas

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O grupo Bikini Kill, da vocalista Kathleen Hanna, ao centro. 

A dica compartilhada por um amigo no Facebook indicava o ótimo documentário The Punk Singer, sobre a vocalista Kathleen Hanna (Bikini Kill, Le Tigre e Julie Ruin), uma das principais vozes do movimento feminista riot grrrl. Para a minha sorte, alguém havia postado o filme na íntegra no YouTube (confira ao final deste texto!), com legendas traduzidas de forma preguiçosa (Google Tradutor?), é verdade, mas a obra cuja exibição eu perdi em um festival de cinema no última ano estava lá, disponível.

O filme narra a trajetória de uma artista que levantou uma bandeira importante, a do feminismo, em oposição à sociedade machista em que vivemos – e nessa esfera entravam discussões sobre aborto, assédio e a luta por igualdade. Respeitada e admirada por nomes do porte de Joan Jett, Kim Gordon e Kurt Cobain, Kathleen Hanna também foi alvo de críticas dos mesmos machões que hoje gritam escondidos na comodidade do computador – na época do Bikini Kill, as ameaçam vinham por meio de cartas, sobretudo endereçadas à vocalista. Por esse motivo, e não apenas pelo som punk, esteticamente vibrante das canções, que o documentário sobre a cantora é importantíssimo nos dias atuais.

Hoje mesmo li o comentário de uma amiga, na rede social mais popular de nosso tempo, narrando o desconforto de dividir um assento de ônibus com um desses espertalhões que adoram abrir as pernas para buscar o contato com a perna da moça que está ao seu lado. Ela não se calou, reclamou e o cara precisou recuar. Esse é apenas um dos exemplos de assédio rotineiro, naturalizado no âmbito social. Mas há uma importante resistência em ascensão, pois as minas se organizam cada vez mais na web, nas ruas e uma nova narrativa de enfrentamento tem reivindicado voz e espaço.

As tentativas de legitimar o senso comum que agride não se sustentam mais – a exemplo do que ocorreu com o texto escrito pela atriz Fernanda Torres, rebatido horas depois, fato que gerou até mea culpa. “O mundo ficou chato”, diz a narrativa conservadora, incapaz de compreender a diversidade do universo ao seu redor, mas sistemas opressores não serão mais aceitos. E dentro da luta das feministas, destaco a militância das blogueiras negras, que trazem também à tona questões que são de exclusividade da mulher negra na sociedade, por meio de textos que multiplicam leituras na velocidade dos compartilhamentos.

Assistir ao documentário de Kathleen Hanna, que na década de 1990 abordava em seu trabalho diversos temas relacionados ao feminismo, estabelece também conexões com as discussões do mundo contemporâneo. Sob o nome Julie Ruin, a vocalista gravou em seu quarto um dos discos mais incríveis do rock underground, com elementos de música eletrônica e instrumentação tradicional, totalmente em lo-fi (low fidelity), um interessante contraponto à alta fidelidade das produções mainstream. A mobilização das mulheres ocorre de forma similar, e articula discursos opostos aos de uma engrenagem opressora, cuja hegemonia é contestada diariamente. E que em breve irá desabar.

O olhar de Julien Temple sobre os primeiros passos do Clash

Joe Strummer, durante o primeiro show do Clash no Roxy, em Londres.

Há 40 anos o cineasta Julien Temple resolveu captar imagens de uma apresentação do grupo inglês The Clash, no recém-inaugurado Roxy. O material foi enriquecido por imagens de transmissões televisivas da época, protestos, movimentações da cena reggae londrina – combinação que reúne os ingredientes da receita musical clashiana, que colocou diversos elementos sonoros e culturais em contato com os três acordes tradicionais do punk rock.

Exibido pela BBC no último dia 1º de janeiro, The Clash: New Year’s Day ’77 é um resgate histórico que contextualiza o surgimento do Clash (e do movimento punk inglês) na Inglaterra de 1977 – ano no qual o estilo musical se consolidou na grande mídia. O documentário mostra cenas inéditas do Clash no clube Roxy (ainda sem o baterista Topper Headon), momentos de bastidores e figuras importantes do punk como o vocalista dos Sex Pistols, Johnny Rotten.

O conteúdo do filme assinado por Temple é um registro significativo de um dos momentos mais importantes da cultura pop e que até hoje reflete na música contemporânea. O filme assinado por Temple pode ser conferido na íntegra no YouTube (vídeo abaixo). Notícia boa para começar 2015!

Resumo musical

Scorsese pode dirigir documentário sobre os Ramones. Yeah!

O grande Martin Scorsese, que já assinou documentários de artistas como Rolling Stones e Bob Dylan, deve assumir também a direção do próximo documentário sobre o grupo de punk rock Ramones. Segundo Jeff Jampol, que agenciou a banda nova-iorquina, em entrevista à Billboard, a ideia está em fase de planejamento, e o filme deve reunir um material inédito do grupo, com cenas de apresentações ao vivo e canções remasterizadas. Parece que vem coisa boa por aí, estamos de olho!  

 

Arcade Fire encerra turnê, e maratona de covers

Foram tantas covers feitas pelo Arcade Fire na turnê do álbum Reflektor, que seriam necessárias muitas linhas de texto para enumerá-las neste post. Na última semana, o grupo canadense encerrou, em seu país de origem, oficialmente os giros pelo mundo que não apenas divulgaram o belo Reflektor, mas também renderam ao público a oportunidade de ver o Arcade Fire tocar canções de nomes como Smiths, Blondie e Clash. Como uma espécie de volta para casa, a banda encerrou a turnê ao som de “I’ll Believe in Anything”, de seus compatriotas do Wolf Parade.

 

Smashing Pumpkins é remixado pelo… Puff Daddy! 

O Smashing Pumpkins relança no próximo dia 23 de setembro o álbum Adore, o belo disco lançado pelo grupo liderado por Billy Corgan em 1998 – como o tempo passa, hehe. Entre as surpresas dessa nova edição, destaque para uma versão de “Let Me Give The World To You”, produzida por Rick Rubin, que vai compor o disco. Outra pérola que acompanha o relançamento é o remix feito pelo Puff Daddy para a canção “Ava Adore”. Ficou dançante, vai…

 

Adriano Cintra divulga single “Duda” no Soundcloud

O músico Adriano Cintra (CSS e Madrid) lança seu primeiro álbum solo em outubro, chamado Animal. O disco é composto por canções de sua autoria, escritas em inglês, e quase todas ganharam versões em português, elaboradas por músicos brasileiros de diferentes vertentes musicais. Nesta semana Adriano Cintra divulgou, via Soundcloud, o primeiro single do novo trabalho, a faixa “Duda”, cuja letra em português é assinada pela cantora Gaby Amarantos, e a sonoridade remete à banda B-52’s.

 

 

Sharon Van Ettern visita programa do Jimmy Kimmel

A Sharon Van Ettern é uma das ótimas vozes de nosso tempo. Neste ano a cantora lançou o belo Are We There, de sonoridade que mescla boas doses de indie-rock e folk, álbum que recebeu boas críticas nos meios de comunicação especializados. Na última semana, Sharon foi ao programa do apresentador Jimmy Kimmel, e mandou, entre outras canções, a linda “Tarifa”. Confira no vídeo abaixo.