Iggy Pop, Thurston Moore e um diálogo sobre rock

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Iggy Pop e Thurston Moore participaram de uma conversa que acabou virando filme nas mãos do famoso selo independente (e também loja de discos) Rough Trade, no final de 2016. O diálogo parte de uma entrevista de Moore com Iggy a respeito do álbum Post Pop Depression, lançado por Iggy e sua superbanda – ao lado de Josh Homme, Matt Helders e Dean Fertita – no último ano, e em seguida joga luz sobre a lendária trajetória do líder dos Stooges.

Trata-se de uma narrativa cheia de memórias trazidas por dois gigantes do punk e garage rock – embora tais categorias sejam meros detalhes perto da grandeza de ambos. Em diversos momentos Iggy recorda dos tempos em que esteve ao lado de Dave Alexander e dos irmãos Ron e Scott Asheton, formação que gravou os clássicos The Stooges (1969) e Funhouse (1970), além da chamada “fase” Raw Power (álbum de 1973, que completou 44 anos nesta semana) – inaugurando não apenas o pré-punk, mas um conceito sonoro que valorizava distorções e outros sons, cujo objetivo não era gerar fruição no público, mas provocações e incômodos sensoriais.

Menção também às contribuições trazidas pelo entrevistador, uma vez que as percepções de Thurston Moore demonstram a influência dos Stooges na cultura pop e no som de seu Sonic Youth, grupo que deu continuidade a esse tipo de estética (ou contraestética) sonora.

A seguir os três capítulos na íntegra, que reúnem minutos valiosos de um diálogo sobre rock – e alguns momentos de jams sessions.

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As jornadas de Iggy e Patti

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Patti Smith e Iggy Pop, durante show beneficente organizado em prol da cultura tibetana, em 2014 (Foto: Evan Agostini/Invision).

Nas discussões que resgatam acontecimentos ocorridos em 2016, é quase unanimidade que o último ano golpeou duramente a música pop, considerando a quantidade de artistas que faleceram – entre os quais estão David Bowie, Prince e Leonard Cohen. Mas há músicos que seguem firmes em suas jornadas e adentraram 2017 combativos em relação ao tempo que nos consome, cujo conteúdo de suas obras é alicerce criativo e inspirador para artistas mais jovens: Iggy Pop e Patti Smith.

Patti subiu ao palco pela primeira vez à frente de uma banda na década de 1970, no momento em que uma cena marginal começava a moldar o que anos depois viria a ser o punk rock. Mesclou elementos de poesia à simplicidade e energia que marcavam a linguagem musical dessa nova vertente underground roqueira. No último dia 30 de dezembro, completou 70 anos (45 de carreira) e anunciou uma pequena turnê cujo repertório será justamente seu álbum de estreia, o ótimo Horses (1975).

Outro padrinho do punk rock, Iggy Pop começou sua trajetória no final dos anos 1960, liderando o grupo The Stooges, que apesar de não ter alcançado sucesso comercial influenciou os principais músicos do punk – de New York Dolls a The Clash, passando por Ramones e Buzzcocks, as cenas britânica e norte-americana beberam na fonte Stooges. Em 2016, lançou o álbum Post Pop Depression (2016), ao lado de artistas de grupos atuais como Queens Of The Stone Age e Arctic Monkeys, além de na última semana ter firmado parceria também com o DJ Danger Mouse.

Ambos desafiam o tempo. A relação dos trabalhos de Patti e Iggy, de densidade performático-poético, estabelece laços duradouros com as novas produções e gerações, escapando à liquidez problematizada por Bauman – que infelizmente faleceu no último dia 9 de janeiro –, uma vez que suas obras são fonte de inspiração constante para quem pisa no movediço campo da criação artística.

O “tênis-pedal wah wah” e a modificação na linguagem da performance

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O modelo de calçado All Wah, que acaba de ter seu release audiovisual divulgado nesta semana pela fabricante Converse, não estabelece apenas uma conexão estética com o rock, mas altera a linguagem da performance dos guitarristas. Trata-se de um tênis que traz um dispositivo capaz de ser plugado diretamente pelo cabo da guitarra e que simula o mesmo efeito distorcido do pedal wah wah.

O protótipo ainda está em testes, mas remete à ideia de que um meio inserido em determinado ambiente altera sua expressividade, semelhante ao trabalho do teórico Marshall McLuhan (1911-1980) – que trabalhou os meios de comunicação como extensões do homem. Hendrix e sua guitarra podem ser considerados um exemplo dessa ideia aplicada à música. Aliás, às vezes tento imaginar o que o lendário guitarrista estaria produzindo hoje.

Mas voltado ao calçado, a presença do dispositivo interno opera diretamente na linguagem corporal porque o pedal está ausente e os sinais elétricos perpassam os pés do guitarrista. Tem-se aí o “prazer da confusão de fronteiras”, como escrevera Donna Haraway no célebre ensaio Manifesto Ciborgue, pois o signo emitido a partir dessa mistura homem/tecnologia é confuso por deslocar as definições – a própria imagem mostra cabos conectados ao pé do músico.

O advento certamente aciona muitas teorias, resta saber se a aplicabilidade do tênis-pedal no processo criativo também irá imprimir mudanças e novas possibilidades. A seguir o vídeo de lançamento.

Vamos falar sobre diversidade?

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A presença maciça de atores brancos nas principais categorias do Oscar 2016, divulgada nos últimos dias, trouxe à tona uma temática que necessita ser discutida: a visibilidade. O assunto foi amplamente abordado pela grande mídia, sobretudo após o cineasta Spike Lee anunciar que não irá ao evento neste ano. E ele está certo.

O problema não reside apenas nas indicações, mas é o desdobramento de uma conservadora política de homogeneização imposta a amplos setores da Academy of Motion Picture Arts and Sciences (Academia de Artes e Ciências Cinematográficas). Não à toa, 94% dos membros da academia são brancos, e destes, 77% são homens. Ou seja, criou-se uma espécie de espaço normativo, exclusivo para homens brancos, em praticamente todos os setores do órgão responsável pela premiação. E tal desmedida refletiu na definição das indicações.

Visibilidade e pluralidade são dispositivos indispensáveis de ambientes democráticos, tanto nos departamentos da Academy of Motion Picture Arts and Sciences como no ambiente midiático de maneira geral. Aqui no Brasil, o tema é recorrente no que diz respeito à Comunicação, uma vez que os monopólios de mídia nacionais deixam muito a desejar neste quesito tão importante. Em um país multicultural como o nosso, é gravíssimo que parte considerável da população não seja representada, e quando isso ocorre, ainda esbarramos em tristes leituras estereotipadas – como é o caso das novelas e dos programas “humorísticos”, que não possuem a menor graça.

Por esse motivo, manifestações como #OscarsSoWhite e a adesão de outros artistas ao boicote podem estimular futuras mudanças na academia, e talvez até mesmo por aqui. Até porque, quando discutimos essa questão no Oscar, discutimos também os reflexos que determinadas assimetrias possuem no âmbito social. Por exemplo, atualmente é possível encontrar bonecas e bonecos negros em lojas de brinquedos – embora não saiba dizer em quais proporções –, fruto de um longo período de mobilizações e questionamentos, tanto de ativistas como de movimentos sociais. Hoje é possível encontrar diversos textos sobre o assunto na web, ativismo que reverbera de obras genais de autoras como Toni Morrison.

Discutir determinados tabus (e invisibilidades) é fundamental para a construção de sociedades democráticas, mas isto só acontece por meio do desejo de mudança, talvez uma das movimentações mais fascinantes da cultura, como observara em seus estudos Raymond Williams. Olhar o mundo sob a lógica da diversidade aciona questionamentos sobre a construção dos espaços normativos, legitimados por narrativas hegemônicas, presentes no Oscar, na mídia e nos acessos a direitos básicos, como é o caso da universidade.

 

 

Bikini Kill e o clássico “Revolution Girl Style Now!”

Na década de 1990, mídia e indústria fonográfica se preocupavam em inventar um novo rótulo, o grunge, para classificar as bandas que despontavam em Seattle – termo que musicalmente sequer existiu, uma vez que esses grupos eram totalmente diferentes. Mas em Washington, uma banda chamada Bikini Kill, formada por Kathleen Hanna, Kathi Wilcox, Tobi Vail e Billy Karren, idealizava, de fato, uma cena musical, ao mesclar punk rock com militância feminista e abalar as estruturas da música vigente.

O primeiro trabalho do grupo foi a clássica demo Revolution Girl Style Now! (1991), que neste semestre será relançada em LP, CD e formatos digitais. A faixa “Double Dare Ya”, que integra o disco, pode ser conferida no site da NPR Music, canção que abre com Kathleen soltando o verbo, um marco na cultura pop ao estimular o riot grrrl, movimento musical feminista que defendia o protagonismo das minas e combate ao machismo. Trata-se de um momento icônico. Após esse primeiro EP, o grupo ainda lançou os álbuns Pussy Whipped (1993) e Reject All American (1996), trabalhou com a Joan Jett e influenciou uma série de outras bandas que também seguiram a atitude proposta por Kathleen e companhia.

O Bikini Kill encerrou as atividades em 1997 e a vocalista Kathleen Hanna chegou a montar o grupo new wave Le Tigre (recomendo!) nos anos seguintes. Mas o legado iniciado com Revolution Girl Style Now! ainda reflete no cenário contemporâneo, basta observar bandas como Sleater-Kinney e The Gossip, entre muitas outras.

A Kathleen hoje

Atualmente, a vocalista Kathleen Hanna segue em turnê com sua nova banda, The Julie Ruin, e em 2013 teve sua trajetória narrada no ótimo The Punk Singer, documentário assinado por Sini Anderson e exibido no festival SXSW daquele mesmo ano. O vídeo abaixo mostra performace recente da cantora à frente do Julie Ruin, durante o Pitchfork Music Festival.

O remix do álbum do Noel Gallagher, a reciclagem musical

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Quando o belo Chasing Yesterday, do Noel Gallagher, chegou ao mercado neste ano a última coisa que a gente poderia pensar é que ele poderia ser levado à praia da música eletrônica, ao receber novos arranjos sintéticos. Pois bem, eis que o músico resolveu relançá-lo ao submetê-lo às mãos de um timaço de produtores: David Holmes e Robert Del Naja (Massive Attack) e Andrew Weatherall, entre outros.

O trabalho que chega às lojas (em limitada versão) em 25 de setembro teve uma de suas faixas divulgadas nesta semana, via Vice britânica: o remix de  “The Right Stuff”, assinado pela dupla Psychemagik – clique aqui e ouça. A canção ganhou textura à moda acid house, o mesmo som que fazia a galera de Manchester pirar o cabeção no icônico Haçienda, em meados dos anos 1990 – inclusive foi em meio ao clima dessa época que o pessoal do Primal Scream concebeu o ótimo Screamadelica (1991).

Remixar é dar nova roupagem a canções de qualquer vertente – a exemplo da disco music de 1970.  Aliás, já que a última postagem do blog foi sobre a cultura jamaicana dos sound systems, não posso esquecer de destacar que as versões dub, inseridas ao final dos álbuns de reggae na década de 1960, são padrinhos dos remixes. Esse negócio de reciclar materiais é tão recorrente na cultura pop quanto a gente pode imaginar.

A discussão vai longe, os exemplos também, por isso indico o documentário Everything is a Remix, de 2013, (vídeo abaixo), elaborado pelo diretor Kirby Ferguson – que na verdade tem tudo a ver com sampleamento também. Vale a pena.

Major Lazer e a atualização da cultura sound system

O DJ (e produtor) Diplo é um bom exemplo do artista contemporâneo que passeia, sem delimitações coercitivas, entre o mainstream e o underground. Já dividiu o palco com a Madonna no programa do Jimmy Fallon, idealizou parceria com ex-integrantes do Clash e o Frank Ocean, apadrinhou o brasileiríssimo Bonde do Rolê e gravou com artistas locais jamaicanos, entre outras correrias musicais. No entanto, de todos os projetos desse baita artista, destaco o Major Lazer, parceria com o também DJ Jillionaire, que resgata não apenas musicalmente a cultura jamaicana dos sound systems, mas faz citação a ela de forma construtiva que reinterpreta e ao mesmo tempo insere novos elementos sonoros.

De maneira resumida, os sound systems surgiram nos guetos de Kingston como coletivos formados por seletores – espécie de “disc-jóquei”, responsável pela manipulação dos discos –, MCs e engenheiros de som. Munidos de potentes alto-falantes, LPs e toca-discos, esses grupos saiam às ruas apresentando performances que consistiam em reproduções de discos e intervenções de voz, combinação que influenciou inclusive a dobradinha DJ/MC, do rap. Sem contar que esses coletivos passaram a gravar em estúdios alternativos artistas locais (de reggae, ska e rocksteady), produzindo e alterando os materiais pré-gravados – quando nasceram as “versões dub” dos discos jamaicanos, um tipo de avô dos remixes –, em suma, promoveram diversas inovações que posteriormente pipocaram na cultura pop. E o Major Lazer inteligentemente tem atualizado muitas dessas ideias (acho que o documentário da BBC, History of Jamaican Music (vídeo abaixo), dá uma boa base sobre o que foi esse fenômeno dos sound systems).

Nos shows do Major Lazer é possível notar que Diplo e Jillionaire intervêm diversas vezes, em comunicação direta com o público, fazendo uso de bandeiras em meio a performances que fogem à ideia de mera apresentação de um DJ. Outro aspecto que remete aos sound systems é a sequência rítmica construída para que vocalistas convidados cantem, ou seja, bases que usam sons adicionais, ecos e ainda agregam texturas eletrônicas trazidas de ritmos como trap e hip hop. É como se a música jamaicana fosse submetida à remixagem em uma linguagem atual que absorvesse técnicas de produção contemporâneas.

Nesta manhã, ao escutar a versão feita pelo Major Lazer para “Lost”, do Frank Ocean, com participação da cantora MØ, foi impossível não relacionar o resultado obtido com as produções jamaicanas. Trata-se de um reggae com seus aspectos de percussão, valorização de acordes de piano e inserção de overdubs, tudo muito bem enfumaçado à moda Lee “Scratch” Perry. Viagem das boas – clique aqui e confira.