Matilha Cultural recebe sessões de cinema com obras que abordam temas sociais

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Importante para deslocar regimes de pensamento que operam formando “zonas de conforto” – o que poderíamos chamar também de senso comum –, a arte que convida à prática do pensamento crítico é indispensável, sobretudo atualmente. A partir desta semana, o espaço Matilha Cultural recebe duas importantes produções recentes que ajudam a questionar o cenário político contemporâneo.

Eu não sou seu Negro (2017), documentário que narra o que é ser negro nos Estados Unidos, parte dos assassinatos de lideres como Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King para em seguida contextualizar questões raciais que se estendem até hoje e refletem na vida dos negros norte-americanos. O filme também resgata a importância de grupos black power e conecta essa luta histórica com a dos movimentos sociais de agora. Ou seja, o que demonstra que ainda há um longo caminho a percorrer.

Outra obra exibida é Eu, Daniel Blake (2017), que se encaixaria perfeitamente no Brasil atual, país que semanalmente vê desabar conquistas sociais históricas – a exemplo da “reforma” da Previdência e legislação trabalhista. A narrativa aborda a trajetória de Daniel Blake (Dave Johns), trabalhador que busca receber os benefícios concedidos pelo governo, após sofrer um grave problema de saúde, mas esbarra na burocracia governamental, que às vezes parece ter o propósito sombrio de dificultar o acesso às políticas de proteção social.

Eu não sou seu Negro será exibido entre os dias 5 e 8 de abril, sempre em duas sessões, que começam respectivamente às 17h e às 19h. O filme Eu, Daniel Blake entra na programação entre os dias 13 de abril e 3 de maio, também nos horários fixos 17h e 19h. Imperdível (para saber mais detalhes, clique aqui).

Iggy Pop, Thurston Moore e um diálogo sobre rock

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Iggy Pop e Thurston Moore participaram de uma conversa que acabou virando filme nas mãos do famoso selo independente (e também loja de discos) Rough Trade, no final de 2016. O diálogo parte de uma entrevista de Moore com Iggy a respeito do álbum Post Pop Depression, lançado por Iggy e sua superbanda – ao lado de Josh Homme, Matt Helders e Dean Fertita – no último ano, e em seguida joga luz sobre a lendária trajetória do líder dos Stooges.

Trata-se de uma narrativa cheia de memórias trazidas por dois gigantes do punk e garage rock – embora tais categorias sejam meros detalhes perto da grandeza de ambos. Em diversos momentos Iggy recorda dos tempos em que esteve ao lado de Dave Alexander e dos irmãos Ron e Scott Asheton, formação que gravou os clássicos The Stooges (1969) e Funhouse (1970), além da chamada “fase” Raw Power (álbum de 1973, que completou 44 anos nesta semana) – inaugurando não apenas o pré-punk, mas um conceito sonoro que valorizava distorções e outros sons, cujo objetivo não era gerar fruição no público, mas provocações e incômodos sensoriais.

Menção também às contribuições trazidas pelo entrevistador, uma vez que as percepções de Thurston Moore demonstram a influência dos Stooges na cultura pop e no som de seu Sonic Youth, grupo que deu continuidade a esse tipo de estética (ou contraestética) sonora.

A seguir os três capítulos na íntegra, que reúnem minutos valiosos de um diálogo sobre rock – e alguns momentos de jams sessions.

Documento de cultura, documento de barbárie

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(Foto: Allstar/United Artist)

O aspecto imagético do cinema e sua capacidade de fixar certas cenas, consideradas “clássicas”, é revelado espontaneamente sempre que adentramos esse denso arquivo de memória, composto por um acúmulo inesgotável de imagens. Hoje podemos acessá-los aos montes em plataformas como o YouTube e, vez ou outra, algo inédito é revelado e reescreve a história.

Essas micronarrativas são capazes de contrapor a chamada “história oficial”, cristalização semelhante, em muitos quesitos, ao senso comum – que por sua vez esconde práticas normalizadas, discursos, sempre construídos por relações de poder. Na última semana, a revista Elle trouxe à tona uma entrevista perdida na qual o diretor Bernardo Bertolucci diz que uma das cenas de O último tango em Paris (1972) foi realmente um estupro (vídeo abaixo).

Para quem não conhece a obra, nela há uma cena em que Marlon Brando agarra à força a atriz Maria Schneider. A artista, que tinha 19 anos na época, sempre alegou que o estupro foi real – e quase abandonou o cinema por conta disso –, e não encenado, fato levado a sério somente nos últimos dias, após a divulgação da entrevista de Bertolucci. Detalhe: Brando tinha 48 anos quando fez esse filme e vários homens que trabalhavam na equipe de filmagem também assistiram à cena.

O caso é semelhante a muitos outros na história do cinema, das artes e no cotidiano de maneira geral – o que remete à cultura do estupro. Outra questão grave é que somente agora parte da sociedade dá credibilidade ao depoimento de Schneider (ela faleceu em 2011), como lembrou uma colega de rede social: “feministas falam há tempos que Bertolucci e Brando planejaram o estupro de Maria Scheneider. Porque, simplesmente, acreditaram na palavra da própria Maria, que já havia declarado ter sido estuprada. Evento tão traumatizante (imagine seu estupro sendo aplaudido em todo mundo), que quase a fez abandonar a carreira e a fez nunca mais despir-se em cena.   Mas, agora, com Bertolucci confessando o ‘ops, não foi legal’, finalmente, mulheres e homens passam a acreditar […] Vamos torcer para que todo estuprador confesse seus crimes, já que a palavra de uma mulher não vale nada”, disse.

Essa narrativa que vem à tona para reestruturar a história e contrapor o senso comum, ancorado no discurso hegemônico que simplesmente ignorara a denúncia da atriz, lembra um célebre texto de Walter Benjamin, cujo título é Sobre o conceito da História. Para o autor, como a história em sua construção desigual pertence aos vencedores (leia-se, os detentores de poder e discurso), os monumentos e produções que fixam essas narrativas carregam a violência simbólica e física exercida por esse poder. Ou seja, todo documento de cultura (e isso vale para o filme de Bertolucci) é também um documento de barbárie.

“Ghost in the Shell”: reflexões sobre o pós-humano e o pós-industrial

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O primeiro trailer da série de mangá Ghost in the Shell foi divulgado na última semana e, seguindo a lógica da publicação que lhe deu origem, exibiu visual futurista com imagens que remetem a momentos Ridley Scott, entre outros autores de ficção.

Na trilha sonora, a versão (remix) do produtor Ki Theory para “Enjoy the silence” (Depeche Mode) parece conectada ao filme na essência do ato de adaptar, o que também ocorre com o filme – já que este sua forma original, se é que podemos usar esse termo, possui linguagem de quadrinho. Não se trata de um aspecto negativo, mas considerar que reproduções e adaptações são formas artísticas do nosso tempo. Entretanto, há outra ideia que atravessa a obra, a estrutura de uma sociedade futurista hiperconectada e em constante simulacro.

Muitos autores discutiram a relação entre humanos e tecnologias, impossível não abordar essa temática hoje, uma vez que as pessoas circulam com telas e dispositivos em praticamente todos os espaços públicos. Jean Baudrillard, por exemplo, em sua obra fala sobre a erosão do sujeito, da política e da informação – no caso da mídia, podemos considerar que imagens aleatórias deixam de mediar, ou seja, temos uma mídia antimediadora por sua indiferença.

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Se o sujeito desaparece na superação da metonímia sobre a metáfora, na visão de Baudrillard, para a autora Dora Haraway ele se converte na figura metafórica do ciborgue, outra questão que aparece em Ghost in the Shell. Mas claro, longe do humano com recursos robóticos do filme, o ciborgue de Haraway ultrapassa o dualismo homem/mulher ao multiplicar as possibilidades de gênero.

Assim, a ficção que chega aos cinemas não deve ser lida como mero produto da indústria cultural, mas como possibilidade de reflexões sobre conceitos pós-humanos da era pós-industrial. Somos hiperconectados, mas existe ética nessa comunicação em meio ao espetáculo técnico-imagético? Há muitas configurações de corpos possíveis, por que ainda enxergamos dicotomias? Sobre tais aspectos, Haraway e Baudrillard, aplicados a certas produções futuristas, despertam provocações acerca do mundo tecnológico, que nem sempre significa avançado.

Mostra Internacional tem Jim Jarmusch, títulos premiados e documentários

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A Mostra Internacional de Cinema chega à sua 40ª edição em São Paulo e este que vos fala não poderia deixar de destacar um dos aspectos marcantes do evento: a diversidade. Entre os destaques, menção ao diretor Jim Jarmusch, cuja obra Estranhos no ParaísoStranger than Paradise –, clássico do cinema independente, será exibida em três sessões.

Jarmusch é um dos principais representantes do cinema alternativo norte-americano, e desde os anos 1980 assina filmes de baixíssimo orçamento – um de seus trabalhos mais recentes é Gimme Danger, sobre o grupo Iggy and the Stooges. No filme Estranhos no Paraíso – vídeo abaixo –, Willie (John Lurie) é um imigrante húngaro que vive em Nova York e recebe a visita inesperada de sua prima Eva (Eszter Balint), trabalho que recebeu um prêmio especial concedido pelo júri do Festival Sundance.

Premiados

Outra parte importante da mostra traz títulos premiados, a exemplo de Morte em Sarajevo (Danis Tanović), vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim; Sem Deus (Ralitza Petrova), melhor filme do Festival de Locarno; Radio Dreams (Babak Jalali), melhor longa-metragem em Roterdã; Todas Essas Noites sem Dormir (Michal Marczak), melhor direção de documentário em Sundance; e Animais Noturnos (Tom Ford), Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza.

Refugiados

Tema recorrente na mídia, mas na maioria das vezes apenas abordado de forma superficial (ou pior, como parte de um espetáculo cheio de estereótipos), o refúgio é a inspiração do documentário brasileiro Exodus – De Onde Eu Vim Não Existe Mais, sobre o drama de refugiados no mundo. A obra é escrita e dirigida por Hank Levine (Lixo Extraordinário), produzida por Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e tem narração de Wagner Moura.

Programação imperdível.

São Paulo recebe mostra de filmes sobre hip hop

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Cena do filme “Awesome, I Fuckin’ Shot That!”, de Nathaniel Hörnblowér, que mostra uma fomosa apresentação do grupo Beastie Boys, ocorrida em janeiro de 2006

O hip hop e sua codificação contra-hegemônica compartilha com outros ritmos marginais (punk, dub e funk) os signos de alteridade e rebeldia. Por isso, mesmo quando inserido à lógica do consumo da indústria fonográfica, estabelece diferenciações em relação à linguagem da música massiva. Não à toa, outras fragmentações no campo da luta social articulam suas mensagens no campo dos DJs, rimas e samples: a exemplo de rappers LGBTs e feministas, que somam forças à temática do movimento negro, geralmente associado ao rap.

A Mostra de Filmes Hip Hop chega à sua 3ª edição neste mês e ocorre de 28 de setembro a 4 de outubro, no Cinesesc, em São Paulo, com programação que terá homenagem ao premiado diretor Bobbito Garcia, um dos expoentes do hip hop de Nova York. As exibições reúnem longas e curtas, ficções e documentários, divididos nos programas: Old School, Raiz de Rua, DJ, Original Gangsta e Obra Inacabada – entrada gratuita.

O vídeo abaixo mostra o trailer do filme Pixadores, de Amir Escandari, trabalho que integra a mostra.

Serviço:

Terceira Mostra de Filmes hip hop

De 28/09 a 04/10

CineSesc (Rua Augusta, 2.075)

Grátis (Retirada de ingressos 1h antes)

Facebook: https://www.facebook.com/MostraFilmesHipHop/

Instagram: https://www.instagram.com/MostraFilmesHipHop/

 

Iggy, Jim Jarmusch e os Stooges no festival de Cannes

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O importante Cannes Film Festival recebeu na última semana a exibição de Gimme Danger, filme de Jim Jarmusch sobre o grupo de rock Stooges, liderado pelo imortal Iggy Pop. A obra reúne memórias do lendário vocalista e uma série de fotografias raras da banda que inspirou artistas como Ramones, Red Hot Chili Peppers, Jack White e Clash – entre outros nomes.

O nome foi retirado de uma faixa do álbum Raw Power (1973), disco que até hoje soa inovador. Aliás, é difícil imaginar a música pop de maneira geral sem a figura de Iggy Pop, único sobrevivente da formação clássica dos Stooges – James Williamson, que integrou o grupo na “fase” Raw Power, também está vivo. Hoje Iggy segue trabalhando na turnê de seu último álbum, Post Pop Depression, disco gravado com Josh Homme, (Queens of the Stone Age) e Matt Helders (Arctic Monkeys).

O cineasta Jim Jarmusch (Coffee and Cigarettes), em entrevista ao Indiewire, fez um relato interessante sobre a importância do grupo Stooges: “No other band in rock‘n’roll history has rivaled The Stooges’ combination of heavy primal throb, spiked psychedelia, blues-a-billy grind, complete with succinct angst-ridden lyrics, and a snarling, preening leopard of a front man who somehow embodies Nijinsky, Bruce Lee, Harpo Marx, and Arthur Rimbaud. There is no precedent for The Stooges, while those inspired by them are now legion”.

A seguir a entrevista concedida por Iggy e Jim Jarmusch antes da exibição de Gimme Danger em Cannes. Vale muito a pena.