Matilha Cultural recebe mostra sobre segurança pública e violência

Em uma metrópole como São Paulo, a complexidade dos diferentes contextos sociais talvez impeça parte da população de perceber os reais números da violência. Dependendo do local de onde se observa, sobretudo se esses espaços forem cercados por muros e câmeras, a sensação de estabilidade pode enganar, e muito. A leitura do Mapa da Violência de 2012, por exemplo, mostra que dos 56 mil assassinatos registrados no país, 30 mil foram de jovens de 15 a 29 anos, entre os quais 77% eram negros. Triste.

Como a relação entre criações artísticas e contextos sociais se entrelaçam – e a arte é também uma forma de protesto e conscientização –, o espaço Matilha Cultural recebe, a partir de hoje, a mostra Setembro Verde: Jovem Negro Vivo, parceria com a Anistia Internacional. A programação conta com exposição visual, ciclo de debates e exibição de filmes, cujo objetivo é alertar as pessoas sobre os altos índices de homicídios na cidade – e reforçar o “diga não à execução”, como o cartaz destacado pelo rapper Emicida, na foto que abre este texto.

Além disso, o evento joga luz sobre a parcela desses crimes que é cometida pela Polícia Militar. De acordo com dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, o número de pessoas mortas por policiais no estado aumentou 105% entre 2013 e 2014, saltando de 346 para 708 óbitos. Somente no primeiro semestre de 2015, o mesmo estudo mostra que 358 pessoas foram mortas pela polícia, um aumento de 9,8% comparado ao mesmo período de 2014. Vale lembrar também que a investigação sobre a vergonhosa chacina ocorrida em Osasco e Barueri segue a passos lentos no estado de São Paulo – e tampouco tem gerado cobertura midiática séria.

“A crença de que vivemos uma ‘guerra às drogas’ e que matar ‘traficantes’ faz parte desse combate tem sido usada como justificativa para uma polícia que faz uso excessivo, desnecessário e arbitrário da força, com frequência inaceitável da força letal. Nessa dinâmica, o grupo social mais atingido é o de jovens negros moradores de favelas e periferias”, explica Atila Roque, Diretor Executivo da Anistia Internacional. Por esses e outros motivos, a programação do evento exibe os filmes O Estopim, de Rodrigo Mac Niven, sobre o desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza na Rocinha; À Queima Roupa, de Theresa Jeussouroun, que aborda a violência e a corrupção policial praticadas no Rio de Janeiro nos últimos 20 anos; Sem Pena, de Eugenio Puppo, que narra a precária vida nas prisões do país; e o lançamento do videoclipe “Heroínas e Heróis”, parceria entre o rapper GOG e o Projetonave.

Serviço:

Setembro Verde: Jovem Negro Vivo 

De 22 de setembro a 22 de outubro

Mostra, debates e filmes são gratuitos.

Happy Hours: Entrada colaborativa de R$ 5.

Debates e filmes sujeitos à lotação do espaço (68 lugares; 2 cadeirantes).

Horários de funcionamento: terça-feira a domingo, da 12h às 20h; exceto sábados, das 14h às 20h
Endereço: R. Rêgo Freitas, 542 – República

Tel.: (11) 3256-2636
Para consultar a programação, clique aqui.

Kandinsky e a importância das rupturas

Na sala que abre a mostra do artista russo Wassily Kandinsky, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, notei a presença de um grupo de alunos do ensino público da cidade acompanhados por uma monitora que lhes explicava parte do acervo exposto. De forma didática, a moça falava sobre o caminho que levou o pintor rumo à abstração e como seus quadros foram rompendo com estruturas imagéticas que remetiam a coisas que poderiam ser identificadas. Olhar uma obra e não necessariamente reconhecê-la no sentido figurativo poderia estimular outras experiências contemplativas, essa foi a lição que os estudantes certamente levaram consigo.

E de fato vivenciar a exposição é notar como Kandinsky desconstruiu o aspecto mimético de sua obra em busca de potencializar outros estímulos sensoriais, como traços, cores e formas. Não à toa o artista era amigo e admirador dos trabalhos do músico austríaco Arnold Schönberg, cuja música também questionou as estruturas da hierarquia tonal (das notas) ao idealizar no campo da música erudita o atonalismo, no qual a organização das notas é independente – ou seja, não há uma nota principal. Inspirado por esse tipo de estrutura, Kandinsky usou inclusive termos como “composição” e “improviso” para batizar alguns de seus quadros.

O que esses artistas do início do século XX propunham, tanto na música como nas artes plásticas, era uma ruptura com as formas antigas de linguagem e suas imposições herméticas e engessadas. E mesmo que nas décadas seguintes esse caráter experimental também tenha se tornado uma regra, como bem observou Theodor W. Adorno em seu ensaio sobre a nova música, a contemporaneidade muitas vezes demanda rompimentos, ou até a necessidade de um simples contraponto.

Se após a explicação da monitora e o contato com o legado de Wassily Kandinsky os alunos aprenderam que as pinturas abstratas são capazes de levar o apreciador a outras formas de contemplação, a lição talvez possa ser estendida a microrrupturas no cotidiano das nossas vidas, como uma simples mudança de trajeto no retorno para casa. O exercício é desafiador.

Serviço:

Kandinsky: tudo começa num ponto

Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo

Até 28 de setembro.

De quarta a segunda, das 9h às 21h.

Informações: site (clique aqui) ou (11) 3113-3651.

Picasso a caminho de “Guernica”

A elaboração de determinada obra de arte passa por um processo criativo que envolve a evocação dos repertórios do artista. Não à toa, para escrever a letra da canção “Desolation Row” o compositor Bob Dylan precisou voltar ao passado para resgatar em sua memória fragmentos de textos literários e bíblicos, que provavelmente leu em algum momento de sua vida. E como o passado diz muito sobre o presente, resgatar lembranças é compreender o agora.

Ao reconstruir a trajetória percorrida pelo espanhol Pablo Picasso (1881-1973), a exposição Picasso e a Modernidade Espanhola – Obras da Coleção do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía reúne uma série de criações, esboços e pesquisas que levaram o celebrado artista aos traços lendários do quadro Guernica – que não faz parte da mostra. O quadro denuncia o terror da Guerra Civil Espanhola, conflito citado também na literatura de Ernest Hemingway.

Entre as 90 obras expostas na mostra, destaque para o esboço que originou a cabeça de cavalo pintada em Guernica, cuja construção indica que Picasso buscava algo mais complexo, grandioso. Há também uma seleção de criações de artistas contemporâneos do pintor, que ajudam o público visitante a adentrar o espírito de uma época, pois tais obras são capazes de dizer muito sobre os temas que inspiravam as criações espanholas à época.

Guernica não veio ao CCBB São Paulo – local que abriga a exposição de Picasso –, mas há uma reprodução virtual do quadro que permite ao observador viver experiência similar de contemplação, embora essa reprodutibilidade não seja a mesma abordada por Walter Benjamin em seu famoso texto.

Em Picasso e a Modernidade Espanhola percebemos a importância dos repertórios na criação artística, e que toda a grandeza de Guernica é fruto de um processo criativo com o qual Picasso organizou fragmentos e traços que já vinha trabalhando em outras obras. Eis o convite, para seguir Picasso rumo à Guernica.

Serviço: 

Picasso e a Modernidade Espanhola – Obras da Coleção do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía

Até 8 de junho.

Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo

Rua Álvares Penteado, 112 – Centro.

Contato: (11) 3113-3651/3652 ou ccbbsp@bb.com.br.

De quarta a segunda, das 9h às 21h.

O universo performático de Marina

Tirar o público da chamada “zona de conforto”, provocar e gerar sensações diversas são aspectos que constantemente vão sendo reconfigurados no campo das artes, sempre que um artista elabora algo desafiador, fruto de um olhar intuitivamente aguçado pela inquietude – e às vezes por obsessões. A sérvia Marina Abramovic, conhecida por suas conceituais performances, talvez seja um dos nomes mais relevantes de nosso tempo, no que diz respeito a esse quesito.

Uma robusta exposição da artista chega ao galpão do Sesc Pompeia no próximo dia 11 de março, intitulada Terra Comunal – Marina Abramović + MAI. A mostra é dividida em duas partes, com destaque para a que exibirá as instalações “The House with the Ocean View”, “The Artist is Present” e “512 Hours”. Marina ainda participa de encontros – nos dias 11 e 26 de março e 1°, 2, 8, 15, 22 e 30 de abril – com o público, uma oportunidade valiosa para compreender o universo intenso e performático da artista sérvia.

Ao aguçar os sentidos do público durante suas performances, como na incrível “The Artist is Present”, na qual Marina, em uma cadeira, trocava olhares com os visitantes sentados à sua frente, a artista mostra que o conceito da obra é que deve ser sentido pelo apreciador, e interpretado de diversas maneiras. Até mesmo por análises poluídas pelo teor ideológico (e paranoico), capazes de enxergar desafetos políticos em paredes grafitadas.

Serviço:

Terra Comunal – Marina Abramović + MAI

De 11 de março a 10 de maio.

Onde: Sesc Pompeia.

Rua Clélia, 93, Água Branca.

Informações: (11) 3871-7700 ou http://www.sescsp.org.br/unidades/11_POMPEIA/.

Terças, Quartas, Quintas e Sextas-feiras das 10h às 21h.

Domingos das 10h às 18h.

A 31ª Bienal de São Paulo e a liberdade negada

A pintura intitulada Mapa (foto acima), do chinês Qiu Zhijie, atrai o olhar do visitante que passa pela rampa de entrada da 31ª Bienal de São Paulo. Os detalhes que preenchem a imensa parede retratam os lugares onde as grandes utopias da humanidade nasceram, e que em algum momento da história exerceram influência na vida social. Esse ponto de partida da edição deste ano do evento, sob o tema poético How To Talk About Things That Don’t Exist Como Falar Sobre Coisas Que Não Existem –, a princípio, soa como questionamento exclusivo do campo das ideologias. Entretanto, tal análise ganha novos contornos no momento em que as demais obras põem em jogo reflexões que desafiam os tabus da sociedade, as doutrinas religiosas, a indústria cultural e as microinstituições de poder – usando um termo foucaultiano – que policiam e moldam a vida do ser humano alienado na engrenagem do mundo capitalista.

É por meio dos olhares de jovens negros envolvidos em crimes, rotineiramente usados como alegoria do espetáculo midiático do noticiário policial, que o paraense Éder Oliveira tece sua crítica. Os murais elaborados pelo artista fazem clara menção à ausência de políticas que, de fato, combatam à violência enraizada nas gritantes desigualdades sociais, e, ao mesmo tempo, expõem um jornalismo preguiçoso, de reflexão nula e abundância de comentários rasos com base em um conteúdo puramente imagético, mas que atinge altos índices de audiência todos os dias.

O controle da memória é outro sinônimo de poder nas sociedades, não à toa, a ausência do passado é instrumento eficaz de dominação nas mãos do Grande Irmão, figura totalitária de 1984, livro de George Orwell. As narrativas da memória que tentam padronizar as identidades nacionais são desconstruídas na linha do tempo proposta pela instalação Línea de Vida / Museo Travesti del Perú, de Giuseppe Campuzano. Ao recontar a história da sexualidade no Peru, por meio de documentos e recortes que trazem à tona lembranças empoeiradas, é elaborado um contraponto à memória imposta por uma democracia que tenta unificar as identidades em uma massa homogênea.  A cronologia organizada pelo artista denuncia principalmente a omissão de dados na composição das narrativas tradicionais sobre sexualidade, como o apagamento a presença da homossexualidade.

A religião é a instituição questionada em Errar de Dios, parceria do coletivo Etcétera com o artista León Ferrari (1920-2013), ambos argentinos. A coletânea de obras reúne trabalhos que fazem alusão aos instrumentos de dominação do período das colonizações, recontextualizando tais mecanismos com a atual barbárie estimulada pela globalização, e sua grande ascensão no neoliberalismo dos anos 90 – quando o setor financeiro passou a controlar as políticas econômicas globais. Ao adentrar no espaço de Errar de Dios, o visitante encontra telefones que o conectam ficcionalmente com deus, enquanto ao fundo uma voz feminina discute com seu criador, entre outros temas, a falta de protagonismo da mulher nas religiões.

O efeito contrário às forças questionadas nos trabalhos anteriores encontra refúgio no espírito contestador, característico da juventude retratada no filme Edukators (2004), percebido na instalação The Incidental Insurgents (Os Insurgentes Incidentais), dos palestinos Basel Abbas e Ruanne Abourahme, e em Los Incontados: un Tríptico, do grupo colombiano Mapa Teatro – Laboratorio de Artistas. No espaço destinado à obra assinada pelo coletivo de Bogotá, por exemplo, ecoa um áudio didático que explica a dupla leitura da palavra “revolução”, nas interpretações das classes alta e baixa. Se para a primeira o significado é “subversão”, para a segunda a mesma palavra significa “construção”.

Uma leitura teleológica conecta a cidade cinza, desigual e repleta de muros, expressa em Nosso Lar, Brasília, do holandês Jonas Staal, ao caos que eclode por meio da violência urbana retratada no vídeo Wonderland, do turco Halil Altindere, sobre a especulação imobiliária. Ambos, ao denunciarem hostilidades acentuadas pelo ambiente das cidades, fazem menção aos versos de Walter Benjamin, escritos no célebre ensaio O Anjo da História, texto no qual o teórico frankfurtiano denuncia os males do progresso.

Assim como os corpos descritos por Benjamin, incontáveis também parecem ser os questionamentos propostos pelo conjunto de obras que ocupam a Bienal deste ano. Questões que, na democracia atual, se tornam essenciais para que todos realmente tenham voz e consequentemente direitos. Entretanto, é preciso considerar a existência de forças que tentam negar espaço a esse conjunto de vozes, cerceando liberdades sob a sombra de uma harmonia que faz uso dos mesmos mecanismos autoritários contra os quais a arte tenta resistir. Neste sentido, a visita ao pavilhão da 31ª Bienal de São Paulo ganha nova relevância.

Serviço:

31ª Bienal de São Paulo

Até 7 de dezembro.

Pavilhão da Bienal São Paulo (Parque do Ibirapuera, Portão 3).

Visitação: terças, quintas, sextas, domingos e feriados, das 9h às 19h (entrada até 18h); quartas e sábados, das 9h às 22h (entrada até 21h). Fechado às segundas.

Entrada gratuita.

31ª Bienal de São Paulo: reflexões sobre os tabus de nosso tempo

Quando as grandes utopias da humanidade nasceram, em algum momento da história exerceram influência na vida social. Ao adentrar a 31ª Bienal de São Paulo, o visitante se depara com a pintura Mapa, do chinês Qiu Zhijie, um imenso desenho que reúne os lugares onde as ideologias nasceram. O tema poético da edição deste ano, How To Talk About Things That Don’t Exist Como Falar Sobre Coisas Que Não Existem –, inclusive, sugere que questionemos esses pensamentos, sejam eles existentes ou não, aplicáveis ou não. Mas, ao entrar em contato com as demais obras e instalações expostas no evento, arrisco dizer que tal temática pode ser interpretada como oposição aos tabus da sociedade e suas inúmeras facetas, como as doutrinas religiosas, a indústria cultural e as microinstituições de poder – usando um termo foucaultiano – que policiam e moldam a vida do ser humano alienado na engrenagem do mundo capitalista. São temas pertinentes à situação atual do Brasil, considerando que muitos desses assuntos ganham destaque ao serem discutidos no período eleitoral.

Serviço:

31ª Bienal de São Paulo

Até 7 de dezembro.

Pavilhão da Bienal São Paulo (Parque do Ibirapuera, Portão 3).

Visitação: terças, quintas, sextas, domingos e feriados, das 9h às 19h (entrada até 18h); quartas e sábados, das 9h às 22h (entrada até 21h). Fechado às segundas.

Entrada gratuita.

A seguir você confere fotos de algumas obras que compõem a Bienal deste ano:

“Kubrick”: um mergulho na obra do mestre

 

Aos subir os degraus do Museu da Imagem e do Som (MIS) que dão acesso à exposição Kubrick, mostra que reúne peças originais dos filmes, fotos, anotações e vídeos, que narram a filmografia do diretor norte-americano, a sensação é de total arrebatamento. Como se fosse possível, por meio de diferentes sentidos, entrar momentaneamente nas obras do cineasta.

Cada uma das salas da exposição traz a temática de um dos filmes de Kubrick. Mas antes de adentrar os espaços, o visitante passa por pequenas cabines que exibem os cartazes originais das obras, fato que remete à decoração de um cinema. É como um aviso: a partir de agora você pisa no set de filmagem de Lolita, de O Grande Golpe ou O Iluminado.

Além das peças originais, a trilha sonora das obras pode ser ouvida em cada sala, outro tempero que intensifica a sensação de “estar dentro do filme”, ou ainda, de mergulhar na mente de Stanley Kubrick e observar de perto toda a sua genialidade.

Para compartilhar um pouco as sensações pelas quais passei em Kubrick, posto aqui algumas imagens que dizem mais (ou melhor, muito mais) do que minhas singelas palavras. Não deixe de conferir a exposição.