Yeah Yeah Yeahs divulga faixa perdida e celebra as gravações precárias

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A faixa “Phone Jam”, divulgada pelo Yeah Yeah Yeahs nesta semana, não faz parte de um álbum de inéditas, tampouco o single de um trabalho no forno. A canção deriva dos escombros do período que antecede o álbum de estreia da banda, Fever To Tell (2003), ou seja, é fruto de uma arqueologia sônica.

O trio formado por Karen O, Nick Zinner e Brian Chase resgata uma canção que expõe linguagem musical produzida a partir de um cenário precário. Esqueça a alta fidelidade das gravações em estúdio, a ideia do grupo em “Phone Jam” – sobretudo a ideia de lançar “Phone Jam” em 2017! – desestabiliza uma leitura linear do tempo. O grupo hoje consagrado retoma uma forma de produzir geralmente associada a poucos recursos técnicos e financeiros.

Na faixa, há claramente ruídos, distorções e vozes (interferências!) que compõem paisagem sonora tecnicamente incômoda para a lógica da busca pela “perfeição” mainstream. A experiência estética percebida em “Phone Jam” pode até ter sido gravada em um estúdio, pouco importa, mas o resultado propositalmente alcançado aciona afetos provocados por um efeito de gravação em baixa definição.

A linguagem de agenciamentos precários enfrenta a busca por certa perfeição vinculada ao fator mercadológico.

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Pabllo Vittar enfrenta o Brasil dos retrocessos

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Longe de ser mero produto gerador de alienação, a música pop é capaz de reunir uma série de elementos portadores de significados culturais. Você certamente já escutou por aí que determinados gêneros musicais como o funk, o tecnobrega e o forró são estilos relacionadas a gostos pouco apurados. Tais considerações, no entanto, não passam de análises simplistas, preconceituosas e que infelizmente às vezes são reproduzidas pelos meios de comunicação.

No primeiro final de semana do Rock in Rio, a cantora Pabllo Vittar arrastou uma multidão na apresentação que fez num palco pequeno do evento, fora das “atrações principais”. E não parou por aí: durante show da artista Fergie, Pabllo foi convidada a subir ao palco e cantar o hit “Sua Cara” – novamente celebrada pelo público. Dias antes, a vice-presidente executiva do festival, Roberta Medina, ignorou os pedidos pela escalação de Anitta (que certamente levaria Pabllo por conta da parceria).

Esse pop que alguns setores atacam e ignoram não é celebrado à toa. A faixa “Sua Cara”, por exemplo, deve ser lida por meio dos significados que é capaz de articular, e que geram sentidos variados por representar demandas sociais emergentes. Na letra, Anitta e Pabllo optam por rebolar, dizem que não aturam sermão, e assim enfrentam uma sociedade historicamente instituída pelo discurso machista. Ou seja, duas mulheres que não pedem permissão, simplesmente fazem (rebolam!).

Mas destaco, em tempos sombrios de fechamento de museu com obras de temática queer, a potência de Pabllo Vittar. A drag (maravilhosa!) coloca em xeque o dualismo homem/mulher, uma máquina queer que faz oposição ao conservadorismo de um país que se perdeu nas sombras de um golpe – de 2016 pra cá, foram incontáveis retrocessos. A diva que mantém o nome Pabllo desestrutura a percepção binária de setores autoritários, totalmente perdidos pelo simples fato de não compreenderem o movimento das subjetividades outras, descompromissadas com os enquadramentos dos discursos normativos.

O signo queer articulado na performance e na linguagem musical de Pabllo atravessa padrões impostos por executivos de grandes festivais, políticos moralistas (e oportunistas) ou juízes-midiáticos ridículos que se aventuram em áreas que desconhecem. Assim, a música da cantora Pabllo ultrapassa o campo do entretenimento e do consumo para assumir um significado político, ao representar uma diversidade que não vai aceitar retrocessos.

 

 

Joe Strummer e a diversidade musical

“O convite é, então, tomado como fenômeno da diferença – que, para mim, decorre de um acontecimento – que provoca, ao mesmo tempo, ruptura, apelo e invocação de alteridades livres” (Wladimir Garcia, UFSC)

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No último dia 21 de agosto Joe Strummer completaria 65 anos. O líder do Clash e do Mescaleros geralmente é lembrado por seu legado denso, altamente produtivo: ajudou a fundar o movimento punk, lançou discos importantes à frente do Clash e por fim vivenciou uma virada sonora mergulhando no experimentalismo do Mescaleros. Esse trajeto criativo traz à tona um aspecto interessante, inerente à sua obra: a diversidade musical.

Joe parece ter sempre assumido uma posição de fronteira, ou seja, fora de qualquer estabilidade que pudesse delimitar seu trabalho. O fato de ser filho de diplomada e pertencer a uma classe média específica no contexto britânico não definiu sua trajetória – movimento contrário ao habitus conceituado por Bourdieu. Muito pelo contrário, Joe, ao produzir linguagem musical assume uma diversidade radical e convida o ouvinte que acompanha a seu trabalho a experimentar tal fruição – inclusive o artista valoriza o aparelho rádio, como se uma transmissão global pudesse espalhar sua mensagem. O nascimento em Ancara (Turquia) foi apenas um de muitos agenciamentos globais que atravessaram Joe e o posicionaram em um campo de alteridade sonora, capaz de enfrentar os enquadramentos da indústria fonográfica, que necessitam de padronizações.

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Essa diversidade começa na abertura do Clash ao reggae, ska, dub, hip hop e música afro-caribenha, do álbum homônimo ao Combat Rock (ver discografia!), e o grupo valoriza textos originados no Terceiro Mundo, ressignificados por meio de uma ética artística que celebra o encontro, o convite a mistura. Essa linguagem musical ocorre porque há uma práxis. A obra do Clash é nômade, não possui território fixo, suas canções (manifestos?) funcionam como uma máquina de guerra (usando aqui um termo de Deleuze e Guattari) que desafia a narrativa institucional (o estado) da música pop, centralizada no chamado Ocidente (eixo Europa/Estados Unidos).

No aniversário de Joe Strummer proponho celebrar a diversidade. Se há um poder que procura padronizar vidas, corpos e gostos (consumo!), encontramos também artistas que escapam a essas disciplinas. A seguir alguns momentos em que Joe propôs uma diversidade radical, no Clash e no Mescaleros.

QOTSA: um minuto de “garage punk”

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O Queens of the Stone Age lança no dia 25 de agosto o álbum Villains e o grupo de Josh Homme divulgou ontem o teaser com um trecho da faixa “Here. We. Come.” (vídeo abaixo), deixando à mostra um minuto de garage punk.

O aspecto que marca o porvir sonoro do QOTSA é o encontro de Dead Kennedys com garage 60, no estilo “banda de porão” que enfrenta o mainstream com distorção e rapidez. Vem coisa boa aí.

Gorillaz: o experimental, o real, o virtual

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O grupo Gorillaz, liderado pelo combativo Damon Albarn, lançou neste ano o álbum Humanz e desembarca na América do Sul em dezembro para o Bue Festival (Argentina). Na última semana, uma apresentação da banda ocorrida na cidade de Colônia (Alemanha) vazou na íntegra na web, deixando pistas da turnê que vem ao território latino-americano em breve.

A virtualidade do grupo traz uma série de questões acerca das relações banda/público e estúdio/show. Se no âmbito virtual das telas e/ou armazenamento fonográfico o Gorillaz é composto por integrantes-animação, no palco Albarn e companhia se apresentam como músicos reais, enquanto paradoxalmente os desenhos emergem no telão para estabelecer o jogo imagético dos tempos de imagem-valor.

Musicalmente o som do Gorillaz combina dance, hip hop e indie. No entanto, no show os recursos sintéticos do estúdio que reduzem a presença de vozes e instrumentos tocados dão lugar a uma banda robusta, com quatro backing vocals, baixo, guitarra, bateria, teclado e piano. O desencaixe e combinações não-lineares entre o acústico e o eletrônico são as grandes sacadas do grupo. Ainda há fôlego para participações especiais, como a de Jehnny Beth, do incrível Savages, em “We Got the Power”. Baita show.

Adriano Cintra divulga demo com 13 faixas

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Foto: reprodução do perfil do artista no Facebook.

O músico e produtor Adriano Cintra divulgou nesta semana uma demo com 13 faixas, na sua página do Facebook. O trabalho reúne canções que mesclam boas referências acumuladas ao longo da trajetória de Adriano. Em “Backfiring”, por exemplo, há boas doses de New Order, enquanto “Sometimes You Just Do” remete à sua antiga banda Cansei de Ser Sexy – grupo que surgiu em um dos períodos mais interessantes do underground de São Paulo. Enfim, temos aí boas doses de pop, anos 80 e electro rock.

2017 Demos é fruto de um período de 24 dias de gravação, que segundo o próprio músico refletem a imersão do artista em seu próprio tempo criativo. Ao postar o link na rede social, Adriano escreveu o seguinte “Em 24 dias eu compus/fiz as demos dessas 13 músicas. Tem mais uma que só vai pro ‘disco’ que vai estar logo mais nos streamings de suas preferências. Amanhã vai pra mixagem, só assim pra eu parar. Teve uma hora que eu achei que ia fazer um disco duplo mas daí eu fui ouvir uns discos duplos e sei lá, achei meio vyagy

PJ Harvey e sua geopolítica sônica

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A cantora britânica PJ Harvey tem inserido nos seus últimos trabalhos temáticas geopolíticas de forma poética, enfrentando assim o contexto pop meramente comercial. À semelhança de outros artistas, que em tempos distintos aderiram a questões políticas, PJ tenta contrapor, por meio da linguagem, um momento em que a barbárie adentra o senso comum como poder disciplinar. Brecht certa vez mencionou, no auge do fascismo na Europa, que vivia tempos em que era preciso defender o óbvio, tamanha a ignorância de quem se rendia ao discurso do autoritarismo.

Em seu novo single, “The Camp”, PJ Harvey narra a jornada de crianças deslocadas com suas famílias à região de Vale do Beca, no Líbano, parceria artística com o fotógrafo Giles Duley – são dele as imagens que ilustram o ótimo vídeo da faixa. Os vocais são divididos com o músico egípcio Ramy Essam.

Muitos sentidos emanam de “The Camp”, e talvez o mais significativo aos tempos atuais seja o fato de a cantora jogar luz sobre uma realidade que nos permite questionar o “progresso capitalista”. A parceria com Essam, por sua vez, atravessa fronteiras geográficas e delimitações culturais, para colocar a canção como potência de alteridade.

Em tempo:

Como parte da série UNESCO Grandes Mulheres da História Africana, caiu nas redes hoje o livro digital Njinga a Mbande: Rainha do Ndongo e do Matamba (para baixar clique aqui), mulher marcante na história de Angola do século XVII. O material ainda reúne um riquíssimo trecho pedagógico para professores levarem a temática às aulas. Imperdível.