Jamaica chamando!

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A exposição “Jamaica, Jamaica!” (até agosto, no Sesc 24 de maio) reúne parte da rica produção musical jamaicana. Muito além do reggae e do genial Bob Marley, o espaço ressalta as materialidades que antecedem a produção da linguagem musical, como a relação humano/tecnologia da experiência de fonografia alternativa, práxis minoritária frente ao mainstream, desenvolvida na Jamaica – sound systems nas ruas, estúdios de gravação e fábricas de prensagem, uma resposta terceiro-mundista à hegemonia da música pop norte-americana e europeia. Sem contar que os gêneros jamaicanos (reggae, dub, ska, rocksteady) espalharam seus “sotaques” no cenário global influenciando a cultura DJ, as remixagens, o hip-hop e geraram hibridizações com o punk britânico.

Práticas sociais e relações corpos/aparelhagens caracterizam o âmbito das micropolíticas que emergem expressivamente na linguagem musical (o “como fazer musical” fixado nos gêneros e em suas sintaxes), uma vez que a linguagem é antes um caso de política que de linguística (DELEUZE; GUATTARI, 1995).

Na foto acima o produtor King Tubby (e sua mesa de som), mago que explorou delays e outros efeitos de estúdio na produção dos inesgotáveis “riddims”.

A seguir outras imagens que compõem a mostra

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Remixes de muitos carnavais

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Os brasilienses do grupo Harmonia do Sampler voltam a revirar a memória musical brasileira para resgatar canções de outros carnavais para conferir-lhes nova roupagem sonora. Faixas como “Cilada”, “Mal Acostumado”, “Me Usa”, “Eva”, “Dia dos Namorados”, entre outras, integram o EP lançado no último mês pela banda.

A ideia do Harmonia do Sampler é remixar essas canções e inserir elementos eletrônicos, geralmente associados a subgêneros da música eletrônica, a exemplo do trap e do house.  No entanto, além de questões meramente estéticas, o movimento de resgatar e ressignificar essas faixas coloca em jogo uma ética artística que difere da descartabilidade (progresso?) inerente à indústria fonográfica.

Ou seja, as versões são atualizações de conteúdos, que seriam sucata sonora na lógica mercadológica vigente, para recolocá-los em circulação. Um despertar de antigos hits no imaginário do Carnaval 2018.

Rincon Sapiência e uma breve projeção (sobre práxis e linguagem) para 2018

A passagem de um ano para outro é sempre um período de especulações, promessas, metas, planejamentos e retrospectivas – esta última sob a lupa seletiva da mídia mainstream foi exibida à exaustão. Como nosso recorte aqui no blog é voltado ao campo da arte, acredito que a música pop pode contribuir bem com esse sentimento reflexivo que invade corações e mentes nos últimos e primeiros dias de cada ano.

Logo após o Natal, o rapper Rincon Sapiência divulgou o vídeo do single “Afro Rep”, que já na enunciação conecta o rap à matriz cultural africana. A canção reúne uma cartografia de intertextos, nos versos e nas imagens, recortes de fenômenos sociais que marcam articulações por novas representações, reforçadas, sobretudo, após a ascensão das mídias digitais.

Nas imagens do vídeo, há mulheres negras (entre artistas e blogueiras, novas vozes do cenário midiático!), roupas africanas e cenas filmadas fora do eixo central da cidade. A letra faz críticas a extratos sociais privilegiados (como a classe média que vê comunismo em tudo) e denuncia episódios recentes de racismo. Já a linguagem musical é onde a práxis, no sentido de prática social que possibilita a mudança, expressa os significados de celebração da diferença, em meio ao jogo de hibridização gerado pelo contato de ritmos de matriz africana com o trap e o hip hop.

O vídeo, lançado às portas de 2018, reforça a continuidade de vozes mais plurais ocupando cada vez mais espaços no próximo ano e, mesmo que a mídia mainstream passe a adotar certas demandas de representatividade, na intenção de harmonizar desigualdades, a tendência é que essas vozes se coloquem em oposição aos quadros que capturam a vida social na geração da docilidade servil ao mercado. Em suma, subjetividades que fazem o trajeto social (práxis) gerador de linguagens como a de “Afro Rep” devem assumir cada vez mais os debates – teremos então um ótimo contraponto ao momento sombrio que vive o país desde o golpe de 2016.

……….

PS (1): No meio da correria de final de semestre (2017) e algumas leituras atrasadas do doutorado demorei para assistir ao novo clipe da Anitta. Como qualquer leitura de produto midiático, é possível identificar aspectos dominantes e significados que colocam novas discussões em circulação. De forma bem resumida, separei alguns pontos positivos (na minha opinião): o cenário periférico que mostra pessoas dançando, em momento de fruição, diferente dos estereótipos abordados por certo “jornalismo”. Já o ponto negativo é a escolha do diretor de fotografia Terry Richardson, que acumula várias acusações de assédio. Terceiro ponto que gostaria de destacar, e aí deixo a questão para futuras discussões: não sei se a cena do rapaz com a mão no bumbum da Anitta se encaixa na ideia de autonomia da mulher, geralmente associada ao do rebolado do funk, acredito que neste aspecto há um paradoxo.

PS (2): Como nessa época de final de ano a gente reencontra amigos, família e pessoas que não vemos há tempos, geralmente nos deparamos com aquele amigo/parente conservador. Juro que não fazia ideia de como o artista Pabllo Vittar incomoda, de fato o discurso heteronormativo e as delimitações fixas de sujeito sempre em jogo nos imaginários ainda exercem forte influência sobre o senso comum.

 

Yeah Yeah Yeahs divulga faixa perdida e celebra as gravações precárias

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A faixa “Phone Jam”, divulgada pelo Yeah Yeah Yeahs nesta semana, não faz parte de um álbum de inéditas, tampouco o single de um trabalho no forno. A canção deriva dos escombros do período que antecede o álbum de estreia da banda, Fever To Tell (2003), ou seja, é fruto de uma arqueologia sônica.

O trio formado por Karen O, Nick Zinner e Brian Chase resgata uma canção que expõe linguagem musical produzida a partir de um cenário precário. Esqueça a alta fidelidade das gravações em estúdio, a ideia do grupo em “Phone Jam” – sobretudo a ideia de lançar “Phone Jam” em 2017! – desestabiliza uma leitura linear do tempo. O grupo hoje consagrado retoma uma forma de produzir geralmente associada a poucos recursos técnicos e financeiros.

Na faixa, há claramente ruídos, distorções e vozes (interferências!) que compõem paisagem sonora tecnicamente incômoda para a lógica da busca pela “perfeição” mainstream. A experiência estética percebida em “Phone Jam” pode até ter sido gravada em um estúdio, pouco importa, mas o resultado propositalmente alcançado aciona afetos provocados por um efeito de gravação em baixa definição.

A linguagem de agenciamentos precários enfrenta a busca por certa perfeição vinculada ao fator mercadológico.

Pabllo Vittar enfrenta o Brasil dos retrocessos

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Longe de ser mero produto gerador de alienação, a música pop é capaz de reunir uma série de elementos portadores de significados culturais. Você certamente já escutou por aí que determinados gêneros musicais como o funk, o tecnobrega e o forró são estilos relacionadas a gostos pouco apurados. Tais considerações, no entanto, não passam de análises simplistas, preconceituosas e que infelizmente às vezes são reproduzidas pelos meios de comunicação.

No primeiro final de semana do Rock in Rio, a cantora Pabllo Vittar arrastou uma multidão na apresentação que fez num palco pequeno do evento, fora das “atrações principais”. E não parou por aí: durante show da artista Fergie, Pabllo foi convidada a subir ao palco e cantar o hit “Sua Cara” – novamente celebrada pelo público. Dias antes, a vice-presidente executiva do festival, Roberta Medina, ignorou os pedidos pela escalação de Anitta (que certamente levaria Pabllo por conta da parceria).

Esse pop que alguns setores atacam e ignoram não é celebrado à toa. A faixa “Sua Cara”, por exemplo, deve ser lida por meio dos significados que é capaz de articular, e que geram sentidos variados por representar demandas sociais emergentes. Na letra, Anitta e Pabllo optam por rebolar, dizem que não aturam sermão, e assim enfrentam uma sociedade historicamente instituída pelo discurso machista. Ou seja, duas mulheres que não pedem permissão, simplesmente fazem (rebolam!).

Mas destaco, em tempos sombrios de fechamento de museu com obras de temática queer, a potência de Pabllo Vittar. A drag (maravilhosa!) coloca em xeque o dualismo homem/mulher, uma máquina queer que faz oposição ao conservadorismo de um país que se perdeu nas sombras de um golpe – de 2016 pra cá, foram incontáveis retrocessos. A diva que mantém o nome Pabllo desestrutura a percepção binária de setores autoritários, totalmente perdidos pelo simples fato de não compreenderem o movimento das subjetividades outras, descompromissadas com os enquadramentos dos discursos normativos.

O signo queer articulado na performance e na linguagem musical de Pabllo atravessa padrões impostos por executivos de grandes festivais, políticos moralistas (e oportunistas) ou juízes-midiáticos ridículos que se aventuram em áreas que desconhecem. Assim, a música da cantora Pabllo ultrapassa o campo do entretenimento e do consumo para assumir um significado político, ao representar uma diversidade que não vai aceitar retrocessos.

 

 

Joe Strummer e a diversidade musical

“O convite é, então, tomado como fenômeno da diferença – que, para mim, decorre de um acontecimento – que provoca, ao mesmo tempo, ruptura, apelo e invocação de alteridades livres” (Wladimir Garcia, UFSC)

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No último dia 21 de agosto Joe Strummer completaria 65 anos. O líder do Clash e do Mescaleros geralmente é lembrado por seu legado denso, altamente produtivo: ajudou a fundar o movimento punk, lançou discos importantes à frente do Clash e por fim vivenciou uma virada sonora mergulhando no experimentalismo do Mescaleros. Esse trajeto criativo traz à tona um aspecto interessante, inerente à sua obra: a diversidade musical.

Joe parece ter sempre assumido uma posição de fronteira, ou seja, fora de qualquer estabilidade que pudesse delimitar seu trabalho. O fato de ser filho de diplomada e pertencer a uma classe média específica no contexto britânico não definiu sua trajetória – movimento contrário ao habitus conceituado por Bourdieu. Muito pelo contrário, Joe, ao produzir linguagem musical assume uma diversidade radical e convida o ouvinte que acompanha a seu trabalho a experimentar tal fruição – inclusive o artista valoriza o aparelho rádio, como se uma transmissão global pudesse espalhar sua mensagem. O nascimento em Ancara (Turquia) foi apenas um de muitos agenciamentos globais que atravessaram Joe e o posicionaram em um campo de alteridade sonora, capaz de enfrentar os enquadramentos da indústria fonográfica, que necessitam de padronizações.

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Essa diversidade começa na abertura do Clash ao reggae, ska, dub, hip hop e música afro-caribenha, do álbum homônimo ao Combat Rock (ver discografia!), e o grupo valoriza textos originados no Terceiro Mundo, ressignificados por meio de uma ética artística que celebra o encontro, o convite a mistura. Essa linguagem musical ocorre porque há uma práxis. A obra do Clash é nômade, não possui território fixo, suas canções (manifestos?) funcionam como uma máquina de guerra (usando aqui um termo de Deleuze e Guattari) que desafia a narrativa institucional (o estado) da música pop, centralizada no chamado Ocidente (eixo Europa/Estados Unidos).

No aniversário de Joe Strummer proponho celebrar a diversidade. Se há um poder que procura padronizar vidas, corpos e gostos (consumo!), encontramos também artistas que escapam a essas disciplinas. A seguir alguns momentos em que Joe propôs uma diversidade radical, no Clash e no Mescaleros.

QOTSA: um minuto de “garage punk”

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O Queens of the Stone Age lança no dia 25 de agosto o álbum Villains e o grupo de Josh Homme divulgou ontem o teaser com um trecho da faixa “Here. We. Come.” (vídeo abaixo), deixando à mostra um minuto de garage punk.

O aspecto que marca o porvir sonoro do QOTSA é o encontro de Dead Kennedys com garage 60, no estilo “banda de porão” que enfrenta o mainstream com distorção e rapidez. Vem coisa boa aí.