70 anos de Iggy Pop

Ross Halfin Photography
Foto: Ross Halfin.

O devir punk tem sua materialidade em Iggy Pop. Mesmo que muitos artistas tenham antecipado – a exemplo do garage rock dos anos 1960 – o que viria a ser o punk do final dos anos 1970, a performance de Iggy no palco reflete em muitos vocalistas que vieram depois dele. No entanto, no aniversário de 70 anos do roqueiro, é preciso pensar o artista não como algo estático, uma vez que ele é referência ao punk, mas movente e inquieto.

Por esse motivo separei alguns momentos na carreira de Iggy Pop que demonstram como sua criatividade superou tentativas de enquadramento.

Padrinho do punk (fase Raw Power)

À frente dos Stooges, Iggy Pop lançou os ótimos The Stooges (1969) e Fun House (1970), trabalhos que praticamente definiram os caminhos sonoros de gente como Sex Pistols, Clash, Ramones, Dead Boys, entre outros. Mas foi no álbum Raw Power (1973), no qual o grupo teve alterações em sua formação (com a morte de Dave Alexander, Ron Asheton foi para o baixo e James Williamson assumiu a guitarra), que o alicerce para o punk foi construído. Canções como “Search and Destroy”, “Your Pretty Face Is Going to Hell” e “Shake Appeal” reúnem a estrutura básica do punk: guitarra à moda Chuck Berry que se impõe aos demais instrumentos (no volume da gravação) e letras que questionam valores morais do público médio.

Iggy se reinventa (fase pós-Stooges)

Com o fim dos Stooges, Iggy Pop se aproxima do gênio David Bowie e grava com o artista inglês dois importantes discos: The Idiot (1977) e Lust for Life (1977). Nesses trabalhos Iggy se afasta de certa associação sonora com punk para explorar referências que vão de Kraftwerk a Joy Division – além do próprio Bowie. Grandes letras como as de “The Passenger” e “China Girl” são alguns exemplos marcantes desta fase.

Diálogo com novas gerações (fase Post Pop Depression)

Iggy Pop e o músico Josh Homme (Queens of the Stone Age) se reuniram com outros artistas do cenário atual – como Dean Fertita (também do Queens of the Stone Age) e Matt Helders (baterista do Arctic Monkeys) – para gravar o ótimo álbum Post Pop Depression (2016). O trabalho rendeu uma breve turnê mundial, mas sua importância está na dinâmica criativa de Iggy que, ao se aproximar de artistas mais jovens, também se deixou influenciar musicalmente por eles. Embora o disco estabeleça uma relação sonora com trabalhos de outrora (como The Idiot), inevitavelmente absorve estilos atuais materializados nas presenças de Homme, Helders e Fertita.

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Iggy Pop, Thurston Moore e um diálogo sobre rock

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Iggy Pop e Thurston Moore participaram de uma conversa que acabou virando filme nas mãos do famoso selo independente (e também loja de discos) Rough Trade, no final de 2016. O diálogo parte de uma entrevista de Moore com Iggy a respeito do álbum Post Pop Depression, lançado por Iggy e sua superbanda – ao lado de Josh Homme, Matt Helders e Dean Fertita – no último ano, e em seguida joga luz sobre a lendária trajetória do líder dos Stooges.

Trata-se de uma narrativa cheia de memórias trazidas por dois gigantes do punk e garage rock – embora tais categorias sejam meros detalhes perto da grandeza de ambos. Em diversos momentos Iggy recorda dos tempos em que esteve ao lado de Dave Alexander e dos irmãos Ron e Scott Asheton, formação que gravou os clássicos The Stooges (1969) e Funhouse (1970), além da chamada “fase” Raw Power (álbum de 1973, que completou 44 anos nesta semana) – inaugurando não apenas o pré-punk, mas um conceito sonoro que valorizava distorções e outros sons, cujo objetivo não era gerar fruição no público, mas provocações e incômodos sensoriais.

Menção também às contribuições trazidas pelo entrevistador, uma vez que as percepções de Thurston Moore demonstram a influência dos Stooges na cultura pop e no som de seu Sonic Youth, grupo que deu continuidade a esse tipo de estética (ou contraestética) sonora.

A seguir os três capítulos na íntegra, que reúnem minutos valiosos de um diálogo sobre rock – e alguns momentos de jams sessions.

As jornadas de Iggy e Patti

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Patti Smith e Iggy Pop, durante show beneficente organizado em prol da cultura tibetana, em 2014 (Foto: Evan Agostini/Invision).

Nas discussões que resgatam acontecimentos ocorridos em 2016, é quase unanimidade que o último ano golpeou duramente a música pop, considerando a quantidade de artistas que faleceram – entre os quais estão David Bowie, Prince e Leonard Cohen. Mas há músicos que seguem firmes em suas jornadas e adentraram 2017 combativos em relação ao tempo que nos consome, cujo conteúdo de suas obras é alicerce criativo e inspirador para artistas mais jovens: Iggy Pop e Patti Smith.

Patti subiu ao palco pela primeira vez à frente de uma banda na década de 1970, no momento em que uma cena marginal começava a moldar o que anos depois viria a ser o punk rock. Mesclou elementos de poesia à simplicidade e energia que marcavam a linguagem musical dessa nova vertente underground roqueira. No último dia 30 de dezembro, completou 70 anos (45 de carreira) e anunciou uma pequena turnê cujo repertório será justamente seu álbum de estreia, o ótimo Horses (1975).

Outro padrinho do punk rock, Iggy Pop começou sua trajetória no final dos anos 1960, liderando o grupo The Stooges, que apesar de não ter alcançado sucesso comercial influenciou os principais músicos do punk – de New York Dolls a The Clash, passando por Ramones e Buzzcocks, as cenas britânica e norte-americana beberam na fonte Stooges. Em 2016, lançou o álbum Post Pop Depression (2016), ao lado de artistas de grupos atuais como Queens Of The Stone Age e Arctic Monkeys, além de na última semana ter firmado parceria também com o DJ Danger Mouse.

Ambos desafiam o tempo. A relação dos trabalhos de Patti e Iggy, de densidade performático-poético, estabelece laços duradouros com as novas produções e gerações, escapando à liquidez problematizada por Bauman – que infelizmente faleceu no último dia 9 de janeiro –, uma vez que suas obras são fonte de inspiração constante para quem pisa no movediço campo da criação artística.

O documentário sobre os Stooges e uma cena que moldou o punk

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O que as atitudes chocantes de Sex Pistols, Richard Hell e Dead Boys têm em comum? Esses grupos compartilham uma série de elementos que, cada qual à sua maneira, sintetiza a postura do punk rock: performances incendiárias, posturas que provocam arrepios nos estratos conservadores da sociedade e uma parede sonora rústica, barulhenta e de poucos acordes.

Um dos pais desse estilo é o grupo norte-americano Iggy and the Stooges. O documentário Gimme Danger, do cineasta Jim Jarmusch, que estreia em outubro nos Estados Unidos traz um ingrediente especial proporcionado por cenas raras. Em uma delas, a lendária banda toca em Cincinnati, em 1970, apresentação marcada por uma performance irresistível de Iggy – de linguagem caótica, digerida e seguida por muitos grupos do chamado “punk 77”, a exemplo da arte que estampa a capa do primeiro álbum do Damned.

Um trecho do filme que mostra essa apresentação foi divulgado nesta semana – confira aqui. A música (gritada) é “1970”, do ótimo Funhouse.

Iggy vira DJ, e toca Bowie

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Coisa de brother. Na edição desta semana de seu programa radiofônico Iggy Confidential, que vai ao ar na BBC 6 Music, o pai do punk Iggy Pop dedicou duas horas de música para homenagear o amigo (e salvador) David Bowie. Ou seja, o ilustre DJ tocou uma seleção especial só de Bowie.

Sabe-se que Bowie e Iggy já firmaram diversas parcerias, principalmente quando o gênio britânico resgatou o então vocalista dos Stooges do fundo do poço. David Bowie produziu Raw Power (1973) – um dos discos mais incríveis de punk rock – e posteriormente, em 1977, assinou também a produção de The Idiot e Lust For Life, e isso não é pouca coisa.

A seguir a playlist com as faixas tocadas por Iggy Pop (confira o programa aqui), o que mostra que de David Bowie ele entende muito bem. Deixo ao final deste texto o vídeo da canção “DJ”, música que talvez Bowie dedicasse a Iggy após ouvir o programa da BBC: “I am a DJ, I am what I play”. Perfeito.

Boys Keep Swinging

Art Decade

John, I’m Only Dancing (Sax Version)

Black Country Rock

Station to Station

What in the World

Wild Is the Wind

The Prettiest Star (Single Version)

Moss Garden

Panic in Detroit

Dirty Boys

Moonage Daydream

Sound and Vision

Under Pressure

Diamond Dogs

Criminal World

Where Are We Now?

I Can’t Give Everything Away

Stay (US Single Edit)

TVC 15

Young Americans (Single Version)

Golden Years (Single Version)

Aladdin Sane

Dollar Days

Warszawa

 

Iggy, Jim Jarmusch e os Stooges no festival de Cannes

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O importante Cannes Film Festival recebeu na última semana a exibição de Gimme Danger, filme de Jim Jarmusch sobre o grupo de rock Stooges, liderado pelo imortal Iggy Pop. A obra reúne memórias do lendário vocalista e uma série de fotografias raras da banda que inspirou artistas como Ramones, Red Hot Chili Peppers, Jack White e Clash – entre outros nomes.

O nome foi retirado de uma faixa do álbum Raw Power (1973), disco que até hoje soa inovador. Aliás, é difícil imaginar a música pop de maneira geral sem a figura de Iggy Pop, único sobrevivente da formação clássica dos Stooges – James Williamson, que integrou o grupo na “fase” Raw Power, também está vivo. Hoje Iggy segue trabalhando na turnê de seu último álbum, Post Pop Depression, disco gravado com Josh Homme, (Queens of the Stone Age) e Matt Helders (Arctic Monkeys).

O cineasta Jim Jarmusch (Coffee and Cigarettes), em entrevista ao Indiewire, fez um relato interessante sobre a importância do grupo Stooges: “No other band in rock‘n’roll history has rivaled The Stooges’ combination of heavy primal throb, spiked psychedelia, blues-a-billy grind, complete with succinct angst-ridden lyrics, and a snarling, preening leopard of a front man who somehow embodies Nijinsky, Bruce Lee, Harpo Marx, and Arthur Rimbaud. There is no precedent for The Stooges, while those inspired by them are now legion”.

A seguir a entrevista concedida por Iggy e Jim Jarmusch antes da exibição de Gimme Danger em Cannes. Vale muito a pena.

Iggy e sua banda em um clubinho de LA

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O álbum Post Pop Depression – adoro esse título –, obra que demonstra o frescor artístico de um Iggy Pop criativo e combativo, mesmo após longa jornada no rock, chega às lojas oficialmente no próximo dia 18 de março. O trabalho é marcado também pela competente banda recrutada por Iggy: Josh Homme (Queens of the Stone Age), Matt Helders (Arctic Monkeys) e Dean Fertita (também do QOTSA).

Segundo o famoso blog Stereogum, no último dia 9, o padrinho do punk e seus correligionários se apresentaram no Teregram Ballroom, em Los Angeles (lugar considerado pequeno para um show desse porte). No set list, além das faixas de Post Pop…, diversos clássicos da trajetória de Iggy foram levados ao show. O vídeo a seguir, por exemplo, mostra o grupo tocando a ótima “Lust For Life”, no calor do inferninho de LA, cuja compactação potencializa a energia roqueira que emana do palco – espaço onde Iggy Pop é invencível na arte performática.

Não custa nada torcer para que essa turnê de Post Pop Depression passe pelo Brasil (Ah, é possível ouvir o álbum na íntegra aqui).