Um filme sobre Poly

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Pouquíssimas vezes a música viu surgir uma artista como Poly Styrene, vocalista e líder de uma das bandas mais incríveis do punk britânico: o X-Ray Spex. Na “história oficial”, o destaque é sempre voltado aos grupos formados por homens (Sex Pistols, Clash, Buzzcocks). No entanto, a ideia de um documentário sobre Poly, intitulado I Am A Cliché, que ainda está em fase de crowdfunding, visa romper com essa narrativa ao resgatar memórias (por meio de entrevistas, fotos e demais arquivos) capazes de contrapor os enquadramentos hegemônicos que delimitam a compreensão do passado.

O projeto é liderado pela filha da cantora, Celeste Bell, a escritora Zoë Howe e o diretor Paul Sng. O roteiro deve jogar luz sobre uma série de questões: como o fato de Poly Styrene ser filha de mãe escocesa e pai somali, o que parece deslocá-la para cenários contra-hegemônicos, antes mesmo de a artista formar o lendário X-Ray Spex – uma vez que dentro da representação de comunidade imaginada ela não se enquadrava na chamada “englishness” (Stuart Hall) –, seu trabalho à frente de uma importante banda punk e problemas de saúde.

O filme sobre carreira da incrível Poly (veja o trailer no vídeo abaixo), que não se resume ao punk, mas está situada no campo da luta feminista, é algo obrigatório para que as próximas gerações tenham acesso a uma leitura honesta do punk – vertente musical que corre à margem dos padrões do mercado, tanto pela rebeldia como também pela criatividade.

Songhoy Blues, o exílio como acontecimento musical

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A descoberta do quarteto Songhoy Blues foi indicação de um amigo do Mali, atualmente refugiado em São Paulo. Escrever sobre o som elaborado por quatro rapazes nascidos em Bamako, que foram proibidos de tocar em seu país após os desdobramentos da guerra civil, é reflexão sobre uma linguagem musical que emerge diaspórica no momento em que determinada parte do mundo constrói muros.

Atualmente o grupo segue em turnê pelos Estados Unidos – a foto acima foi publicada em uma rede social, após apresentação em Nova Iorque – e em breve participa de um festival organizado pela BBC 6 Music. Fugindo um pouco da discussão acerca da difference que inevitavelmente propõe um rompimento semântico com certo enquadramento ocidental de leitura da arte (neste caso a música), as canções do Songhoy Blues colocam em jogo a ideia (discussão teórica) que conecta acontecimento e linguagem na mesma posição temporal (Deleuze). Ou seja, isso nos leva a considerar canções a maneira como “Irganda”, “Soubour” e “Al Hassidi Terei” narram o mundo de hoje ao trazer, entre outras temáticas, o contexto dos fluxos migratórios.

E mais do que ultrapassar fronteiras sonoras (semióticas) e físicas, o Songhoy Blues desloca o regime normalizador que define produções musicais separando o que é de países considerados desenvolvidos e o chamado Terceiro Mundo. Quem coassina a produção do álbum de estreia do grupo, Music in Exile, é o guitarrista Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs), fato que insere no trabalho outro agenciamento que o coloca como produção difícil de fechar em uma tradição musical específica.

Ouvir “Al Hassidi Terei”, por exemplo, é adentrar textos variados, da maneira como é colocada a voz à guitarra psicodélica. A estrutura pode ser semelhante à de uma banda de rock ou blues (baixo, guitarra, bateria e voz), mas o que se lê na linguagem musical não pode ser determinado dentro de tal padrão – o termo blues, aliás, que dá nome à banda, se refere ao desert blues que é vertente musical nascida no Mali.

Quando no início do texto me afastei de uma discussão focada na difference, propus uma reflexão acerca da identidade contemporânea, hoje movediça, e por vezes, ao se afastar das tradições, inevitavelmente é colocada em situação de crise (ou crises). Songhoy Blues e seu som nômade configuram acontecimento e linguagem, em meio a um mundo de encontros diversos. Acredito ser importante também resgatar a observação de Achille Mbembe e Sarah Nuttall, trabalhada em um belo texto sobre a leitura da África nos estudos atuais, que sugere pensar o mundo como unidade, uma vez que pensar essa unidade nada mais seria que inserir nela toda a sua diversidade – e variados textos.

Como singela introdução ao trabalho do Songhoy Blues, deixo aqui algumas canções que fazem parte do álbum Music in Exile – o qual traz também uma belíssima versão para “Should I Stay Or Should I Go” (Clash).

Alma jamaicana

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Cedric Myton (foto) e Ken Boothe estão tramando. Os lendários músicos (magos) jamaicanos trabalham juntos no álbum Soul Of Jamaica, produção que será lançada em 17 de março e vai reunir releituras de diversos clássicos da Jamaica, faixas que compõem o chamado rocksteady – termo usado para classificar o reggae em seus primeiros anos.

Gravado em uma região montanhosa de Trench Town, o disco vai reunir veteranos de Kingston e artistas contemporâneos, todos nascidos na efervescente terra do reggae, do ska e do dub, entre outras vertentes. Kiddus I é um dos jedis que participam do projeto. Em entrevista recente ao Guardian, ele destacou o processo analógico de gravação ao qual será submetido Soul Of Jamaica – os jamaicanos, aliás, são pioneiros em uma série de mixagens e técnicas que originaram o hip hop e a música eletrônica. Negar o digital, para esses veteranos, é resistência minoritária.

Já sobre as canções que entram no disco, destaque para duas preciosidades capazes de reforçar a importância do reggae na música produzida no último século, as faixas “Youth Man” (da antiga banda Congos, de Myton) e “Artibella” (Boothe). Ambas as releituras são importantes para jogar luz sobre uma questão importante: há diversos artistas interessantíssimos na Jamaica, além de Marley.

Com exceção de alguns polos nacionais importantes, a exemplo de São Luís (Maranhão), não é muito comum o consumo da música jamaicana que foge do eixo Wailers-Marley-Tosh (e eles são geniais, minha crítica é que precisamos olhar a riqueza de outras produções jamaicanas). E é justamente esse aspecto de ampliação de horizonte que faz de Soul Of Jamaica um belo convite para adentrar o universo enfumaçado de Kingston.

Blondie divulga faixa com participação de Johnny Marr

O lendário Blondie lança o álbum Pollinator no dia 5 de maio. O disco reúne algumas participações interessantes como Sia, Charli XCX, o guitarrista Nick Valensi (Strokes) e Dev Hynes, mas é na presença de Johnny Marr (Smiths), na canção “My Monster”, que o significado pós-punk/new wave é reforçado na linguagem.

Pollinator funciona como rearticulação da memória musical do próprio Blondie, uma vez que outras faixas divulgadas do trabalho resgatam o clima de obras clássicas como Parallel Lines (1978). Por esse motivo, contar com os acordes de Marr é reafirmar a ideia de que o Blondie dos tempos de CBGB não está confinado ao passado ou nos suportes de áudio. Não à toa, na turnê que irá passar pelo Reino Unido o grupo de Debbie Harry se apresenta no Roundhouse – casa de shows que já recebeu Patti Smith e Clash.

Pollinator mantém também diálogo estético com a música recente, ao contar com a guitarra de Nick Valensi, por exemplo. O grupo de Valensi, aliás, foi diretamente influenciado pelo Blondie, sobretudo no ótimo Is This It (2001). Esse aspecto joga com significações temporais e demonstra que a banda norte-americana não está preocupada com cristalizações, mas disposta a reaproveitar textos do passado e da música contemporânea.

Iggy Pop, Thurston Moore e um diálogo sobre rock

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Iggy Pop e Thurston Moore participaram de uma conversa que acabou virando filme nas mãos do famoso selo independente (e também loja de discos) Rough Trade, no final de 2016. O diálogo parte de uma entrevista de Moore com Iggy a respeito do álbum Post Pop Depression, lançado por Iggy e sua superbanda – ao lado de Josh Homme, Matt Helders e Dean Fertita – no último ano, e em seguida joga luz sobre a lendária trajetória do líder dos Stooges.

Trata-se de uma narrativa cheia de memórias trazidas por dois gigantes do punk e garage rock – embora tais categorias sejam meros detalhes perto da grandeza de ambos. Em diversos momentos Iggy recorda dos tempos em que esteve ao lado de Dave Alexander e dos irmãos Ron e Scott Asheton, formação que gravou os clássicos The Stooges (1969) e Funhouse (1970), além da chamada “fase” Raw Power (álbum de 1973, que completou 44 anos nesta semana) – inaugurando não apenas o pré-punk, mas um conceito sonoro que valorizava distorções e outros sons, cujo objetivo não era gerar fruição no público, mas provocações e incômodos sensoriais.

Menção também às contribuições trazidas pelo entrevistador, uma vez que as percepções de Thurston Moore demonstram a influência dos Stooges na cultura pop e no som de seu Sonic Youth, grupo que deu continuidade a esse tipo de estética (ou contraestética) sonora.

A seguir os três capítulos na íntegra, que reúnem minutos valiosos de um diálogo sobre rock – e alguns momentos de jams sessions.

“#Internationalclashday”: a transmissão-manifesto da rádio KEXP

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A celebração da quinta edição do International Clash Day, idealizado pela The Joe Strummer Foundation – organização que realiza projetos sociais vinculados à música, e dá suporte a músicos que não possuem recursos, fundada por Joe Strummer, líder do Clash –, ganhou apoio da KEXP Radio nesta terça-feira (7). A adesão da emissora às homenagens prestadas ao grupo britânico The Clash ocorre em um momento político muito delicado, sobretudo para os norte-americanos (Trump), bem como outros focos da ascensão conservadora no mundo.

A programação que foi a ar hoje celebrou o Clash e grupos relacionados à temática da banda (questões políticas, vertentes do pré-punk e do punk rock e valorização da diversidade sonora). Juntaram-se à transmissão da emissora vinte estações, localizadas nos Estados Unidos, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Reino Unido.

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Em uma corajosa transmissão-manifesto, a KEXP justificou da seguinte forma a sua programação especial, inspirada no legado de Joe e seus correligionários:

“The message of The Clash, so influenced by the international sounds they grew up with, is both powerful and uplifting especially now in this time of struggle”, disse o locutor John Richards, durante o KEXP Morning Show ao apresentar a ideia do International Clash Day. E em seguida completou: “The Clash represents what KEXP is all about – music, rebellion, and pushing boundaries. KEXP is infused by international sounds, songs of protest and believe strongly in the power of the airwaves to affect change. That is why we are focusing on these three important pillars throughout the day. KEXP invites everyone to join us in celebrating this inclusive ‘public service announcement, with guitars”.

Intertextos na mídia

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Na mesma semana, a cantora Lady Gaga subiu ao palco do midiático Super Bowl e no início de sua performance mandou um trecho de “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie. Ao aproveitar o espaço no megaevento para citar Guthrie – músico que foi crítico notório do conservadorismo – a artista automaticamente se colocou em oposição ao atual presidente.

Outro dia uma amiga dizia que em tempos difíceis devemos nos apegar aos autores que admiramos, eu colocaria os músicos no mesmo patamar de importância. Seja na transmissão-manifesto da KEXP Radio ou na brecha encontrada pela cantora Lady Gaga, a música funciona como alternativa comunicacional que valoriza vozes divergentes.

‘1984’ é agora?

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O que parecia distópico na temática de 1984, obra de George Orwell publicada em 1949, se mostrou cada vez mais alinhado ao poder, sobretudo no mundo pós-guerra que refletia sobre alternativas democráticas depois que terríveis experiências totalitárias deixaram lembranças estarrecedoras na humanidade – nazismo, fascismo e comunismo stalinista. No entanto, se considerarmos as violações de direitos humanos de nosso tempo iremos perceber que não aprendemos nada com as lições do último século, ou que pouca coisa mudou.

Na última semana, bastou o porta-voz da Casa Branca admitir ter usado ‘fatos alternativos’ para afirmar que a posse de Trump foi a mais assistida da história para o livro de Orwell figurar novamente na lista de mais vendidos da Amazon. Mas não é preciso se apoiar no personagem ruim que o atual presidente norte-americano representa, assim como sua sombria chegada ao poder, para notar que a democracia capitalista possui inúmeras relações com totalitarismos (sugiro a leitura do ótimo A Doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre, de Naomi Klein).

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Foto publicada pela cantora M.IA., em seu perfil no Instagram.

Quem circula pelas ruas de metrópoles como São Paulo logo percebe a naturalização de câmeras de vigilância, usadas sem qualquer regulamentação, aparatos que dialogam com os monitoramentos que ocorrem no âmbito da internet, uma vez que corporações como Google e Facebook detêm nossos dados – ou seja, convivemos com uma série de teletelas. As espionagens da NSA (Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos) e as consequentes perseguições de quem ousou denunciar essa violação norte-americana – a exemplo de Edward Snowden e Julian Assange – demonstram que a palavra democracia fora alterada em sua estrutura sígnica para ocultar totalitarismos dos mais variados níveis.

Assim como na obra 1984, convivemos com um novo duplipensar que emerge em tempos de Trump e Brexit, sob a roupagem de pós-verdade, modus operandi de um mundo no qual a figura do Grande Irmão é materializada no deus mercado financeiro, capaz de controlar todos os aparelhos repressivos, ideológicos (mídia) e militares disponíveis. Portanto, se 1984 voltou mesmo a figurar entre os livros mais vendidos, o fato ocorrem em um momento no qual a leitura de obras como a de Orwell – bem como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley – é exercício necessário para que possamos compreender um cenário que, segundo texto recente do professor Achille Mbembe, caminha para a fim da era do humanismo.