Songhoy Blues lança “Résistance” em junho

post
Foto: Africa Express

Na mão contrária da homogeneizante indústria fonográfica, o quarteto malinês Songhoy Blues segue propondo novas sensações sonoras. O grupo lança seu próximo álbum, Résistance, no dia 16 de junho, e dá sequência ao caminho de alteridade no cenário musical, aberto pelo disco de estreia Music in Exile (2015).

A presença da banda nos espaços midiáticos dos mais variados tipos – streaming, tevês, rádios, redes sociais, festivais etc. –, é experiência outra de fruição, que geralmente o chamado ocidente, viciado em produções norte-americanas e europeias, ignora. A primeira amostra desse novo trabalho é a funkeada “Bamako”, homenagem à capital do Mali, onde tudo começou.

O funk, entretanto, é apenas um dos elementos usados na linguagem, uma vez que a letra cantada em dialeto songai, as menções ao desert blues e a produção de Neil Comber (que já trabalhou com a M.I.A., apenas) colocam diferentes textos no mesmo espaço. Não há preocupação em pertencer a um enquadramento específico, mas o que importa é valorizar os movimentos.

Em tempo: Résistance ainda conta com as participações de Elf Kid e (do gênio imortal) Iggy Pop.

O track list de Résistance:

  1. “Voter”
  2. “Bamako”
  3. “Sahara” (featuring Iggy Pop)
  4. “Yersi Yadda”
  5. “Hometown”
  6. “Badji”
  7. “Dabari”
  8. “Ici Bas”
  9. “Ir Ma Sobay”
  10. “Mali Nord” (featuring Elf Kid)
  11. “Alhakou”
  12. “One Colour”

70 anos de Iggy Pop

Ross Halfin Photography
Foto: Ross Halfin.

O devir punk tem sua materialidade em Iggy Pop. Mesmo que muitos artistas tenham antecipado – a exemplo do garage rock dos anos 1960 – o que viria a ser o punk do final dos anos 1970, a performance de Iggy no palco reflete em muitos vocalistas que vieram depois dele. No entanto, no aniversário de 70 anos do roqueiro, é preciso pensar o artista não como algo estático, uma vez que ele é referência ao punk, mas movente e inquieto.

Por esse motivo separei alguns momentos na carreira de Iggy Pop que demonstram como sua criatividade superou tentativas de enquadramento.

Padrinho do punk (fase Raw Power)

À frente dos Stooges, Iggy Pop lançou os ótimos The Stooges (1969) e Fun House (1970), trabalhos que praticamente definiram os caminhos sonoros de gente como Sex Pistols, Clash, Ramones, Dead Boys, entre outros. Mas foi no álbum Raw Power (1973), no qual o grupo teve alterações em sua formação (com a morte de Dave Alexander, Ron Asheton foi para o baixo e James Williamson assumiu a guitarra), que o alicerce para o punk foi construído. Canções como “Search and Destroy”, “Your Pretty Face Is Going to Hell” e “Shake Appeal” reúnem a estrutura básica do punk: guitarra à moda Chuck Berry que se impõe aos demais instrumentos (no volume da gravação) e letras que questionam valores morais do público médio.

Iggy se reinventa (fase pós-Stooges)

Com o fim dos Stooges, Iggy Pop se aproxima do gênio David Bowie e grava com o artista inglês dois importantes discos: The Idiot (1977) e Lust for Life (1977). Nesses trabalhos Iggy se afasta de certa associação sonora com punk para explorar referências que vão de Kraftwerk a Joy Division – além do próprio Bowie. Grandes letras como as de “The Passenger” e “China Girl” são alguns exemplos marcantes desta fase.

Diálogo com novas gerações (fase Post Pop Depression)

Iggy Pop e o músico Josh Homme (Queens of the Stone Age) se reuniram com outros artistas do cenário atual – como Dean Fertita (também do Queens of the Stone Age) e Matt Helders (baterista do Arctic Monkeys) – para gravar o ótimo álbum Post Pop Depression (2016). O trabalho rendeu uma breve turnê mundial, mas sua importância está na dinâmica criativa de Iggy que, ao se aproximar de artistas mais jovens, também se deixou influenciar musicalmente por eles. Embora o disco estabeleça uma relação sonora com trabalhos de outrora (como The Idiot), inevitavelmente absorve estilos atuais materializados nas presenças de Homme, Helders e Fertita.

Matilha Cultural recebe sessões de cinema com obras que abordam temas sociais

post

Importante para deslocar regimes de pensamento que operam formando “zonas de conforto” – o que poderíamos chamar também de senso comum –, a arte que convida à prática do pensamento crítico é indispensável, sobretudo atualmente. A partir desta semana, o espaço Matilha Cultural recebe duas importantes produções recentes que ajudam a questionar o cenário político contemporâneo.

Eu não sou seu Negro (2017), documentário que narra o que é ser negro nos Estados Unidos, parte dos assassinatos de lideres como Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King para em seguida contextualizar questões raciais que se estendem até hoje e refletem na vida dos negros norte-americanos. O filme também resgata a importância de grupos black power e conecta essa luta histórica com a dos movimentos sociais de agora. Ou seja, o que demonstra que ainda há um longo caminho a percorrer.

Outra obra exibida é Eu, Daniel Blake (2017), que se encaixaria perfeitamente no Brasil atual, país que semanalmente vê desabar conquistas sociais históricas – a exemplo da “reforma” da Previdência e legislação trabalhista. A narrativa aborda a trajetória de Daniel Blake (Dave Johns), trabalhador que busca receber os benefícios concedidos pelo governo, após sofrer um grave problema de saúde, mas esbarra na burocracia governamental, que às vezes parece ter o propósito sombrio de dificultar o acesso às políticas de proteção social.

Eu não sou seu Negro será exibido entre os dias 5 e 8 de abril, sempre em duas sessões, que começam respectivamente às 17h e às 19h. O filme Eu, Daniel Blake entra na programação entre os dias 13 de abril e 3 de maio, também nos horários fixos 17h e 19h. Imperdível (para saber mais detalhes, clique aqui).

Um filme sobre Poly

post

Pouquíssimas vezes a música viu surgir uma artista como Poly Styrene, vocalista e líder de uma das bandas mais incríveis do punk britânico: o X-Ray Spex. Na “história oficial”, o destaque é sempre voltado aos grupos formados por homens (Sex Pistols, Clash, Buzzcocks). No entanto, a ideia de um documentário sobre Poly, intitulado I Am A Cliché, que ainda está em fase de crowdfunding, visa romper com essa narrativa ao resgatar memórias (por meio de entrevistas, fotos e demais arquivos) capazes de contrapor os enquadramentos hegemônicos que delimitam a compreensão do passado.

O projeto é liderado pela filha da cantora, Celeste Bell, a escritora Zoë Howe e o diretor Paul Sng. O roteiro deve jogar luz sobre uma série de questões: como o fato de Poly Styrene ser filha de mãe escocesa e pai somali, o que parece deslocá-la para cenários contra-hegemônicos, antes mesmo de a artista formar o lendário X-Ray Spex – uma vez que dentro da representação de comunidade imaginada ela não se enquadrava na chamada “englishness” (Stuart Hall) –, seu trabalho à frente de uma importante banda punk e problemas de saúde.

O filme sobre carreira da incrível Poly (veja o trailer no vídeo abaixo), que não se resume ao punk, mas está situada no campo da luta feminista, é algo obrigatório para que as próximas gerações tenham acesso a uma leitura honesta do punk – vertente musical que corre à margem dos padrões do mercado, tanto pela rebeldia como também pela criatividade.

Songhoy Blues, o exílio como acontecimento musical

POST

A descoberta do quarteto Songhoy Blues foi indicação de um amigo do Mali, atualmente refugiado em São Paulo. Escrever sobre o som elaborado por quatro rapazes nascidos em Bamako, que foram proibidos de tocar em seu país após os desdobramentos da guerra civil, é reflexão sobre uma linguagem musical que emerge diaspórica no momento em que determinada parte do mundo constrói muros.

Atualmente o grupo segue em turnê pelos Estados Unidos – a foto acima foi publicada em uma rede social, após apresentação em Nova Iorque – e em breve participa de um festival organizado pela BBC 6 Music. Fugindo um pouco da discussão acerca da difference que inevitavelmente propõe um rompimento semântico com certo enquadramento ocidental de leitura da arte (neste caso a música), as canções do Songhoy Blues colocam em jogo a ideia (discussão teórica) que conecta acontecimento e linguagem na mesma posição temporal (Deleuze). Ou seja, isso nos leva a considerar canções a maneira como “Irganda”, “Soubour” e “Al Hassidi Terei” narram o mundo de hoje ao trazer, entre outras temáticas, o contexto dos fluxos migratórios.

E mais do que ultrapassar fronteiras sonoras (semióticas) e físicas, o Songhoy Blues desloca o regime normalizador que define produções musicais separando o que é de países considerados desenvolvidos e o chamado Terceiro Mundo. Quem coassina a produção do álbum de estreia do grupo, Music in Exile, é o guitarrista Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs), fato que insere no trabalho outro agenciamento que o coloca como produção difícil de fechar em uma tradição musical específica.

Ouvir “Al Hassidi Terei”, por exemplo, é adentrar textos variados, da maneira como é colocada a voz à guitarra psicodélica. A estrutura pode ser semelhante à de uma banda de rock ou blues (baixo, guitarra, bateria e voz), mas o que se lê na linguagem musical não pode ser determinado dentro de tal padrão – o termo blues, aliás, que dá nome à banda, se refere ao desert blues que é vertente musical nascida no Mali.

Quando no início do texto me afastei de uma discussão focada na difference, propus uma reflexão acerca da identidade contemporânea, hoje movediça, e por vezes, ao se afastar das tradições, inevitavelmente é colocada em situação de crise (ou crises). Songhoy Blues e seu som nômade configuram acontecimento e linguagem, em meio a um mundo de encontros diversos. Acredito ser importante também resgatar a observação de Achille Mbembe e Sarah Nuttall, trabalhada em um belo texto sobre a leitura da África nos estudos atuais, que sugere pensar o mundo como unidade, uma vez que pensar essa unidade nada mais seria que inserir nela toda a sua diversidade – e variados textos.

Como singela introdução ao trabalho do Songhoy Blues, deixo aqui algumas canções que fazem parte do álbum Music in Exile – o qual traz também uma belíssima versão para “Should I Stay Or Should I Go” (Clash).

Alma jamaicana

myton

Cedric Myton (foto) e Ken Boothe estão tramando. Os lendários músicos (magos) jamaicanos trabalham juntos no álbum Soul Of Jamaica, produção que será lançada em 17 de março e vai reunir releituras de diversos clássicos da Jamaica, faixas que compõem o chamado rocksteady – termo usado para classificar o reggae em seus primeiros anos.

Gravado em uma região montanhosa de Trench Town, o disco vai reunir veteranos de Kingston e artistas contemporâneos, todos nascidos na efervescente terra do reggae, do ska e do dub, entre outras vertentes. Kiddus I é um dos jedis que participam do projeto. Em entrevista recente ao Guardian, ele destacou o processo analógico de gravação ao qual será submetido Soul Of Jamaica – os jamaicanos, aliás, são pioneiros em uma série de mixagens e técnicas que originaram o hip hop e a música eletrônica. Negar o digital, para esses veteranos, é resistência minoritária.

Já sobre as canções que entram no disco, destaque para duas preciosidades capazes de reforçar a importância do reggae na música produzida no último século, as faixas “Youth Man” (da antiga banda Congos, de Myton) e “Artibella” (Boothe). Ambas as releituras são importantes para jogar luz sobre uma questão importante: há diversos artistas interessantíssimos na Jamaica, além de Marley.

Com exceção de alguns polos nacionais importantes, a exemplo de São Luís (Maranhão), não é muito comum o consumo da música jamaicana que foge do eixo Wailers-Marley-Tosh (e eles são geniais, minha crítica é que precisamos olhar a riqueza de outras produções jamaicanas). E é justamente esse aspecto de ampliação de horizonte que faz de Soul Of Jamaica um belo convite para adentrar o universo enfumaçado de Kingston.

Blondie divulga faixa com participação de Johnny Marr

O lendário Blondie lança o álbum Pollinator no dia 5 de maio. O disco reúne algumas participações interessantes como Sia, Charli XCX, o guitarrista Nick Valensi (Strokes) e Dev Hynes, mas é na presença de Johnny Marr (Smiths), na canção “My Monster”, que o significado pós-punk/new wave é reforçado na linguagem.

Pollinator funciona como rearticulação da memória musical do próprio Blondie, uma vez que outras faixas divulgadas do trabalho resgatam o clima de obras clássicas como Parallel Lines (1978). Por esse motivo, contar com os acordes de Marr é reafirmar a ideia de que o Blondie dos tempos de CBGB não está confinado ao passado ou nos suportes de áudio. Não à toa, na turnê que irá passar pelo Reino Unido o grupo de Debbie Harry se apresenta no Roundhouse – casa de shows que já recebeu Patti Smith e Clash.

Pollinator mantém também diálogo estético com a música recente, ao contar com a guitarra de Nick Valensi, por exemplo. O grupo de Valensi, aliás, foi diretamente influenciado pelo Blondie, sobretudo no ótimo Is This It (2001). Esse aspecto joga com significações temporais e demonstra que a banda norte-americana não está preocupada com cristalizações, mas disposta a reaproveitar textos do passado e da música contemporânea.