Show de Pete Doherty é “homenagem” ao Brasil

pete

Acabei de ler uma crítica no site do Estadão sobre o show do músico Pete Doherty (Libertines). O texto descreve uma aparição cambaleante do músico que, ao que parece (não assisti ao show), conduziu a apresentação doidão. O mesmo cenário enunciativo do ethos roqueiro que já orbitou por Cobain, Iggy Pop e Sid Vicious.

No ano passado vi os Libertines no Popload Festival e curti  – aliás, o último álbum do grupo, Anthems For Doomed Youth (2015), é ótimo. Sobre o jornal narrar um Doherty combalido, creio que a apresentação deve ser lida como metáfora dedicada a um Brasil em ruínas, triste momento no qual assistimos a uma polícia varrer como lixo pessoas doentes, no local chamado pela mídia (burguesa) cracolândia. Ou, ainda no âmbito da tragédia, o que dizer de um governo ilegítimo que convoca o exército? Ou ainda o massacre conduzido pela polícia do Pará que matou dez pessoas?

Nessas circunstâncias descritas, o desleixo de Doherty deve ser entendido como “homenagem” ao Brasil atual, e nada melhor que um artista, por meio de sua performance, demonstrar a gravidade de uma situação que alguns setores do país insistem em não enxergar. Portanto, Doherty sintetizou muito bem nossa melancolia, descrença e escombros durante seu show no último dia 24, no Cine Joia.

Manchester, lágrimas e música pop

Inevitável também é não citar a triste notícia que recebemos no começo da semana, o atentado em Manchester, durante show da cantora Ariana Grande. Sobre isso, deixo aqui um ótimo depoimento do pesquisador Fabrício Silveira (UNISINOS), que no ano passado publicou o ótimo “Guerra Sensorial – Música pop e cultura underground em Manchester” (foto abaixo).

“Um bombardeio alemão devastou o centro de Manchester durante a Segunda Grande Guerra. O imaginário bélico, depois disso, ganhou uma tradução muito particular no pós-punk produzido na região no início da década de 1980. Mais tarde, na metade dos anos 1990, a cidade foi outra vez atingida, num atentado a bomba assumido pelo IRA.

A música pop feita no local, no período, não passou ao largo, assumindo o fato como tema e, mais uma vez, como experiência sensorial a ser lembrada e reproduzida.

Hoje, Manchester foi alvo de uma ação terrorista num show da cantora Ariana Grande. É impressionante o modo como terror e música pop parecem ali se alimentar, numa espécie de rebatimento mútuo, cheio de nuances e súbitas explosões.

O livro que publiquei no ano passado tentou pautar o debate. O triste acontecimento de hoje dá ao trabalho um tom premonitório, que não é nada mais, talvez, do que a infeliz comprovação de que algo verdadeiro havia sido captado e intuído”.

livro fabrício

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