Songhoy Blues, o exílio como acontecimento musical

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A descoberta do quarteto Songhoy Blues foi indicação de um amigo do Mali, atualmente refugiado em São Paulo. Escrever sobre o som elaborado por quatro rapazes nascidos em Bamako, que foram proibidos de tocar em seu país após os desdobramentos da guerra civil, é reflexão sobre uma linguagem musical que emerge diaspórica no momento em que determinada parte do mundo constrói muros.

Atualmente o grupo segue em turnê pelos Estados Unidos – a foto acima foi publicada em uma rede social, após apresentação em Nova Iorque – e em breve participa de um festival organizado pela BBC 6 Music. Fugindo um pouco da discussão acerca da difference que inevitavelmente propõe um rompimento semântico com certo enquadramento ocidental de leitura da arte (neste caso a música), as canções do Songhoy Blues colocam em jogo a ideia (discussão teórica) que conecta acontecimento e linguagem na mesma posição temporal (Deleuze). Ou seja, isso nos leva a considerar canções a maneira como “Irganda”, “Soubour” e “Al Hassidi Terei” narram o mundo de hoje ao trazer, entre outras temáticas, o contexto dos fluxos migratórios.

E mais do que ultrapassar fronteiras sonoras (semióticas) e físicas, o Songhoy Blues desloca o regime normalizador que define produções musicais separando o que é de países considerados desenvolvidos e o chamado Terceiro Mundo. Quem coassina a produção do álbum de estreia do grupo, Music in Exile, é o guitarrista Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs), fato que insere no trabalho outro agenciamento que o coloca como produção difícil de fechar em uma tradição musical específica.

Ouvir “Al Hassidi Terei”, por exemplo, é adentrar textos variados, da maneira como é colocada a voz à guitarra psicodélica. A estrutura pode ser semelhante à de uma banda de rock ou blues (baixo, guitarra, bateria e voz), mas o que se lê na linguagem musical não pode ser determinado dentro de tal padrão – o termo blues, aliás, que dá nome à banda, se refere ao desert blues que é vertente musical nascida no Mali.

Quando no início do texto me afastei de uma discussão focada na difference, propus uma reflexão acerca da identidade contemporânea, hoje movediça, e por vezes, ao se afastar das tradições, inevitavelmente é colocada em situação de crise (ou crises). Songhoy Blues e seu som nômade configuram acontecimento e linguagem, em meio a um mundo de encontros diversos. Acredito ser importante também resgatar a observação de Achille Mbembe e Sarah Nuttall, trabalhada em um belo texto sobre a leitura da África nos estudos atuais, que sugere pensar o mundo como unidade, uma vez que pensar essa unidade nada mais seria que inserir nela toda a sua diversidade – e variados textos.

Como singela introdução ao trabalho do Songhoy Blues, deixo aqui algumas canções que fazem parte do álbum Music in Exile – o qual traz também uma belíssima versão para “Should I Stay Or Should I Go” (Clash).

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