Documento de cultura, documento de barbárie

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(Foto: Allstar/United Artist)

O aspecto imagético do cinema e sua capacidade de fixar certas cenas, consideradas “clássicas”, é revelado espontaneamente sempre que adentramos esse denso arquivo de memória, composto por um acúmulo inesgotável de imagens. Hoje podemos acessá-los aos montes em plataformas como o YouTube e, vez ou outra, algo inédito é revelado e reescreve a história.

Essas micronarrativas são capazes de contrapor a chamada “história oficial”, cristalização semelhante, em muitos quesitos, ao senso comum – que por sua vez esconde práticas normalizadas, discursos, sempre construídos por relações de poder. Na última semana, a revista Elle trouxe à tona uma entrevista perdida na qual o diretor Bernardo Bertolucci diz que uma das cenas de O último tango em Paris (1972) foi realmente um estupro (vídeo abaixo).

Para quem não conhece a obra, nela há uma cena em que Marlon Brando agarra à força a atriz Maria Schneider. A artista, que tinha 19 anos na época, sempre alegou que o estupro foi real – e quase abandonou o cinema por conta disso –, e não encenado, fato levado a sério somente nos últimos dias, após a divulgação da entrevista de Bertolucci. Detalhe: Brando tinha 48 anos quando fez esse filme e vários homens que trabalhavam na equipe de filmagem também assistiram à cena.

O caso é semelhante a muitos outros na história do cinema, das artes e no cotidiano de maneira geral – o que remete à cultura do estupro. Outra questão grave é que somente agora parte da sociedade dá credibilidade ao depoimento de Schneider (ela faleceu em 2011), como lembrou uma colega de rede social: “feministas falam há tempos que Bertolucci e Brando planejaram o estupro de Maria Scheneider. Porque, simplesmente, acreditaram na palavra da própria Maria, que já havia declarado ter sido estuprada. Evento tão traumatizante (imagine seu estupro sendo aplaudido em todo mundo), que quase a fez abandonar a carreira e a fez nunca mais despir-se em cena.   Mas, agora, com Bertolucci confessando o ‘ops, não foi legal’, finalmente, mulheres e homens passam a acreditar […] Vamos torcer para que todo estuprador confesse seus crimes, já que a palavra de uma mulher não vale nada”, disse.

Essa narrativa que vem à tona para reestruturar a história e contrapor o senso comum, ancorado no discurso hegemônico que simplesmente ignorara a denúncia da atriz, lembra um célebre texto de Walter Benjamin, cujo título é Sobre o conceito da História. Para o autor, como a história em sua construção desigual pertence aos vencedores (leia-se, os detentores de poder e discurso), os monumentos e produções que fixam essas narrativas carregam a violência simbólica e física exercida por esse poder. Ou seja, todo documento de cultura (e isso vale para o filme de Bertolucci) é também um documento de barbárie.

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