O conceito dos estudos culturais esquecido por Monica Iozzi

O compartilhamento de uma declaração dada por Monica Iozzi, no programa Vídeo Show da última semana, ocorreu aos montes em redes sociais. Nas palavras da apresentadora, é preciso “deixar o sertanejo universitário de lado e ouvir um pouquinho de Cazuza”, disse. A menção ao roqueiro refletia os 25 anos completados desde que o cantor faleceu. E Iozzi parecia disposta, pois foi capaz de profetizar que o mundo ficaria “melhor” caso o gosto das outras pessoas fosse moldado aos dela, e que era preciso parar de ouvir “funk e sertanejo, e ouvir um pouco de Cazuza, de Legião Urbana, de Elis Regina”. Mas o que ela talvez não saiba, sobretudo por apresentar esse discurso perigoso e engessado de “alta cultura”, é que todas as práticas sociais podem ser examinadas sob o viés cultural.

O erro pode até ser ingênuo, mas está amplamente presente em uma sociedade como a brasileira, em que as narrativas que abastecem os imaginários estão concentradas nas mãos de um pequeno monopólio midiático. E a falácia desqualificadora de ritmos como o funk, de origem periférica, é discurso geralmente adotado por que tenta impor determinado gosto musical, ou pior, soar como detentor de uma erudição duvidosa. Até mesmo na área acadêmica nos deparamos com essas distorções que embriagam o “senso comum”. Certa vez, em evento científico da área de comunicação, senti vergonha de colegas que alegavam que funk mesmo era o do James Brown, e não esse dos funkeiros brasileiros. Ora, como se nas músicas do ícone soul não houvesse forte apelo sexual, performance corporal e rebeldia.

Se no funk nacional contemporâneo há casos de machismo e falas misóginas, por outro lado também é possível identificar artistas que buscam outras abordagens em suas letras, como o MC Garden, que propõe canções mais politizadas. O problema talvez seja o vício de manter um olhar preguiçoso, baseado apenas na mera repetição de estereótipos. Barreira que certamente impede a identificação de artistas como o trio Pearls Negras, cujo trabalho é um mix de funk, trap e hip hop. Além de fechar as portas para a diversidade dos tipos de funk existentes hoje, na qual é possível encontrar artistas que contestam o machismo, como é o caso de Valesca Popozuda. Mas o principal erro na fala de Iozzi talvez seja entrar na questão estética da música, ao induzir as pessoas a achar que determinado estilo é superior ao outro. Curioso é saber que os rocks como os de Cazuza e Legião Urbana possuem os mesmos elementos básicos de construção da música popular, presentes também no sertanejo universitário: como refrão, melodia e verso.

Então, trata-se de uma superficialidade de análise que emite opiniões a respeito de um fenômeno cultural sem antes mesmo considerar (ou tentar compreender) as suas condições e meios de produção. Uma vez que toda criação artística possui um leque de significados e sem entendê-los a chance de reverberar achismos é enorme. Finalizo essa reflexão parafraseando o autor Richard Johnson, teórico dos Estudos Culturais (EC), quando ele alerta sobre os perigos de patologizar determinada cultura e normalizar os modos dominantes – o que infelizmente a Monica Iozzi acabou fazendo.

Um outro olhar

Em resposta à apresentadora, o DJ Marlboro publicou em sua página no Facebook um texto que dialoga com o que tentei explicar acima. Para quem não conhece, Marlboro é responsável pela popularização dos bailes funk, e foi muito celebrado no Reino Unido por DJs e produtores do chamado jungle (que originou o drum’n’bass), vertente eletrônica marginal em terreno britânico e que em muitos aspectos se assemelha ao nosso funk. Aliás, para quem quiser ampliar os conceitos sobre o funk, indico o documentário Sou feia, mas tô na moda (2005), de Denise Garcia.

A seguir, a inteligente resposta formulada por Marlboro:

Infeliz colocação da minha amiga Monica Iozzi, programa ao vivo é assim, achei infeliz e preconceituoso o comentário.

Acho que gostos e estilos devem sempre ser respeitados, porque esse gosto é o retrato de cada um, respeitar o gosto de uma pessoa é o mesmo que respeitar a própria pessoa e suas diferenças, é o mesmo que respeitar suas crenças, sua cor, respeitar sua opção sexual e etc… nem sempre o que é bom pra você será pra outros, gosto é individual, pessoal e diverso. Graças a Deus “diverso”

Porque as pessoas não podem ouvir de tudo sem deixar de ouvir o que elas gostam?

O que é música de qualidade? Na minha opinião existe qualidade sonora, onde podem ser reguláveis frequência para um ajuste e melhoria, entre graves e agudos. Mas, na minha opinião, não existe qualidade musical, música pra mim é mensagem, e nós é que somos bons ou maus decodificares dessas mensagens, que podem estar nas letras ou não, as mensagens das musicas mais importantes são as que são traduzidas pela alma, o gosto musical de uma pessoa é formado pelo que ela vive e viveu até aquele momento de suas vidas. Essa formação, deve sempre ser respeitada como a própria pessoa, o preconceito com gosto de alguém é manifestação disfarçada de preconceito contra a vida, maneira e escolha de outras pessoas. Penso que temos que ouvir de tudo sim, a diversidade do que ouvimos vai sempre nos enriquecer culturalmente, intelectualmente e mentalmente. Mas menosprezar o que as pessoas ouvem e achar que os seus gostos são melhores do que o de outros, a ponto de pedir que as pessoas parem de ouvir algo, é preconceito. Viva a diversidade, viva as escolhas, mas acima de tudo, viva o respeito.

OBs: África é reconhecida como o berço musical do mundo, e inspiraram o mundo, tocando tambores, Até hoje os africanos e seus decendentes, são respeitados como os melhores músicos, e na África continuam tocando tambores, e continuam inspirando o mundo.

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