A 31ª Bienal de São Paulo e a liberdade negada

A pintura intitulada Mapa (foto acima), do chinês Qiu Zhijie, atrai o olhar do visitante que passa pela rampa de entrada da 31ª Bienal de São Paulo. Os detalhes que preenchem a imensa parede retratam os lugares onde as grandes utopias da humanidade nasceram, e que em algum momento da história exerceram influência na vida social. Esse ponto de partida da edição deste ano do evento, sob o tema poético How To Talk About Things That Don’t Exist Como Falar Sobre Coisas Que Não Existem –, a princípio, soa como questionamento exclusivo do campo das ideologias. Entretanto, tal análise ganha novos contornos no momento em que as demais obras põem em jogo reflexões que desafiam os tabus da sociedade, as doutrinas religiosas, a indústria cultural e as microinstituições de poder – usando um termo foucaultiano – que policiam e moldam a vida do ser humano alienado na engrenagem do mundo capitalista.

É por meio dos olhares de jovens negros envolvidos em crimes, rotineiramente usados como alegoria do espetáculo midiático do noticiário policial, que o paraense Éder Oliveira tece sua crítica. Os murais elaborados pelo artista fazem clara menção à ausência de políticas que, de fato, combatam à violência enraizada nas gritantes desigualdades sociais, e, ao mesmo tempo, expõem um jornalismo preguiçoso, de reflexão nula e abundância de comentários rasos com base em um conteúdo puramente imagético, mas que atinge altos índices de audiência todos os dias.

O controle da memória é outro sinônimo de poder nas sociedades, não à toa, a ausência do passado é instrumento eficaz de dominação nas mãos do Grande Irmão, figura totalitária de 1984, livro de George Orwell. As narrativas da memória que tentam padronizar as identidades nacionais são desconstruídas na linha do tempo proposta pela instalação Línea de Vida / Museo Travesti del Perú, de Giuseppe Campuzano. Ao recontar a história da sexualidade no Peru, por meio de documentos e recortes que trazem à tona lembranças empoeiradas, é elaborado um contraponto à memória imposta por uma democracia que tenta unificar as identidades em uma massa homogênea.  A cronologia organizada pelo artista denuncia principalmente a omissão de dados na composição das narrativas tradicionais sobre sexualidade, como o apagamento a presença da homossexualidade.

A religião é a instituição questionada em Errar de Dios, parceria do coletivo Etcétera com o artista León Ferrari (1920-2013), ambos argentinos. A coletânea de obras reúne trabalhos que fazem alusão aos instrumentos de dominação do período das colonizações, recontextualizando tais mecanismos com a atual barbárie estimulada pela globalização, e sua grande ascensão no neoliberalismo dos anos 90 – quando o setor financeiro passou a controlar as políticas econômicas globais. Ao adentrar no espaço de Errar de Dios, o visitante encontra telefones que o conectam ficcionalmente com deus, enquanto ao fundo uma voz feminina discute com seu criador, entre outros temas, a falta de protagonismo da mulher nas religiões.

O efeito contrário às forças questionadas nos trabalhos anteriores encontra refúgio no espírito contestador, característico da juventude retratada no filme Edukators (2004), percebido na instalação The Incidental Insurgents (Os Insurgentes Incidentais), dos palestinos Basel Abbas e Ruanne Abourahme, e em Los Incontados: un Tríptico, do grupo colombiano Mapa Teatro – Laboratorio de Artistas. No espaço destinado à obra assinada pelo coletivo de Bogotá, por exemplo, ecoa um áudio didático que explica a dupla leitura da palavra “revolução”, nas interpretações das classes alta e baixa. Se para a primeira o significado é “subversão”, para a segunda a mesma palavra significa “construção”.

Uma leitura teleológica conecta a cidade cinza, desigual e repleta de muros, expressa em Nosso Lar, Brasília, do holandês Jonas Staal, ao caos que eclode por meio da violência urbana retratada no vídeo Wonderland, do turco Halil Altindere, sobre a especulação imobiliária. Ambos, ao denunciarem hostilidades acentuadas pelo ambiente das cidades, fazem menção aos versos de Walter Benjamin, escritos no célebre ensaio O Anjo da História, texto no qual o teórico frankfurtiano denuncia os males do progresso.

Assim como os corpos descritos por Benjamin, incontáveis também parecem ser os questionamentos propostos pelo conjunto de obras que ocupam a Bienal deste ano. Questões que, na democracia atual, se tornam essenciais para que todos realmente tenham voz e consequentemente direitos. Entretanto, é preciso considerar a existência de forças que tentam negar espaço a esse conjunto de vozes, cerceando liberdades sob a sombra de uma harmonia que faz uso dos mesmos mecanismos autoritários contra os quais a arte tenta resistir. Neste sentido, a visita ao pavilhão da 31ª Bienal de São Paulo ganha nova relevância.

Serviço:

31ª Bienal de São Paulo

Até 7 de dezembro.

Pavilhão da Bienal São Paulo (Parque do Ibirapuera, Portão 3).

Visitação: terças, quintas, sextas, domingos e feriados, das 9h às 19h (entrada até 18h); quartas e sábados, das 9h às 22h (entrada até 21h). Fechado às segundas.

Entrada gratuita.

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